O único momento em que conseguia esquecer a sua condição era quando estava mergulhado nas águas do mar. Sabia que estava longe o suficiente quando os outros se assemelhavam a pequenas pontas de alfinetes. Nadava muito para lá da zona das ondas, onde podia relaxar e deixar-se flutuar, sem sobressaltos, acalmando o corpo e a mente. Ali era só ele e o sal marinho. A água salina segurava-lhe os pesos e fazia boiar os problemas. Só o frio era capaz de colocar um fim àquela breve e cúmplice relação. Esse incómodo haveria de o abraçar e abusar de todo o seu corpo até alcançar o areal. Chegava gelado. Hirto. Com os membros entorpecidos e o espírito rígido, estava de volta à sua sina. Saía da água como entrou, com os olhos dos outros cravados na sua singularidade. Ele, que sempre mirava em frente, era espiado de baixo para cima por numerosos torcicolos de espanto. Manuel era grande. Gigante. Grande demais, ouvia muitas vezes. E nem a natural curvatura que fora criando para caber nas portas e nos carros o fazia mais pequeno. Nas plateias podia dizer-se que havia um espaço “antes” e “depois” do Manuel: quem ficava no “antes” rabujava e havia até quem reclamasse o preço dos bilhetes; quem se encavalitava nos seus ombros usufruía do panorama, posto que não sofresse de vertigens. Do seu alto, Manuel sentia ventos que os outros não sentiam, bronzeava mais rapidamente e avisava sobre os primeiros pingos de chuva. Nos supermercados era muitas vezes requisitado para aceder às prateleiras superiores, limpava as janelas e podava quase todas as árvores dos vizinhos. Manuel falava com os pássaros, com quem se cruzava muitas vezes enquanto caminhava. Afagava os ninhos com carinho e até ajudava a compô-los quando rajadas de vento os desmanchavam. Os pais diziam-lhe que vivia com a cabeça nas nuvens e ele nunca percebeu se estavam a ser metafóricos. No inverno a mãe fazia-lhe umas meias grossas, com um cano muito alto, para proteger os pés que não cabiam em nenhuma cama.
Vivia com a dúvida de saber o que significava ser “grande demais”. Um dia, Manuel foi consultar um padre, que o aconselhou um médico, que o orientou para um psicólogo, que lhe sugeriu falar com um amigo, que lhe recomendou um padre…
Foi só no mar que percebeu que ser grande não é um problema. O mar é grande, mas nunca demais, e Manuel é como ele: cabem nele aqueles que quiserem flutuar e usar do seu sal marinho para aliviarem os seus problemas. Só a frieza instilada pode enfraquecer a grandeza de Manuel.
