Josefina Madeira . 26

Era a casa da mãe, a casa da família, mas pouco sentia como a sua casa. Do que se recordava bem da sua infância era aquele ano inteiro que viveu na “cottage”, o velho casal isolado nas colinas húmidas e ventosas dos “moors”, a poucas milhas de distância para nordeste, a modesta e centenária casa rural onde se refugiaram quando a fundição se tornou estratégica na economia de guerra, e alvo da Luftwaffe.
Daqui só lhe ficou a memória vaga dos períodos de férias escolares e militares, quando vinha a casa pelo Natal e no verão, suficiente para reconhecê-la como a sua casa, mas sem o afecto do lar que se reconhece no cheiro e ruídos noturnos. Nem sequer tinha um quarto certo para si. Era como se fosse sempre um visitante de malas feitas, como agora se sentia, numa casa demasiado grande, construída e enriquecida na fusão e moldação do ferro que ajudou a revolução industrial, na Grosmont que crescera na entrada do túnel da via férrea, erguida com o carvão e minério de ferro do subsolo da charneca dos antepassados de sua mãe batizados na igreja de St. Hedda de Egton Bridge, registados desde que no século XVII o pároco católico passou a fazê-lo livremente.

Sebastian lamentava-se por não ter nenhuma casa ou terra que considerasse como a sua origem, onde sentisse a ligação umbilical, o bem estar do berço, o refúgio ansiado nos maus momentos. A infância de que se recordava passara-a em Portugal, na tenra juventude foi internado no colégio, a primeira maioridade fez-se na formação do serviço militar, pelo meio teve a, que sabe hoje ter sido, primeira necessidade de afirmação pessoal, com a vontade e voluntariedade que o levou à guerra do Suez, para defender um mundo e ideais, de um Cairo e Egipto num império decadente natal, que a realidade já faz duvidar.

Seu avô paterno fora oficial de cavalaria colocado em Bombaim. Seu pai nasceu lá, em 1906, mas veio estudar e fazer formação militar para Inglaterra, onde conheceu e casou-se com Beatrice, antes de rumar ao Egipto, na força britânica de proteção e controlo do canal do Suez e restantes interesses, a seguir à tumultuosa e frágil independência egípcia de 1922.
Sebastian nasceu no Cairo, em 1935, mas acompanhou a sua mãe na primavera de 1940, embarcados à pressa para a que julgavam segura Grã-Bretanha, com todo o restante pessoal civil colonial, perante a ameaça das forças italianas na vizinha Líbia, numa angustiosa viagem de barco pelo Mediterrâneo e Atlântico, sob ameaça constante das marinhas italiana e alemã.
A vaga memória desta viagem e o testemunho do sofrimento da mãe com notícia da morte do pai, em 1942, que mal compreendeu na altura, moldou-lhe definitivamente a juventude, fê-lo seguir a carreira militar, como o pai e o avô, e tentar emendar o que julgava seren erros políticos, com a aventura egípcia de 1956.
De onde era, a quem pertencia, para onde ia, eram dúvidas que não conseguia responder.

Após guardar a Bessie na gravilha em frente à porta de serviço das traseiras, Tom guiou-o, com poucas palavras, pela porta da esquerda do hall, para a grande sala de estar com maples, sofás, candeeiros de pé entretanto acendidos, mesas de apoio com copos e cinzeiros, armário de bebidas e charutos, e uma lareira, sob um espelho, na parede interior oposta às cinco janelas que davam para a frontaria. Havia mais duas janelas na parede do fundo, a ladear a mesa de jogo.
A sala criava três ambientes diferentes. Um conjunto de sofás pesados, enfrentava a lareira, agora apagada, ao lado direito, para conforto do inverno. Outro conjunto de sofás opunha-se-lhes, virados para as janelas, mais claros e floridos, em sintonia com a luz de fim de tarde que irrompe das janelas nos serões longos e luminosos dos dias de verão. Ao fundo, uma mesa de jogo aliciava os desafiadores da sorte, em noites de inverno aquecidas a álcool e tabaco.

Incomodava-lhe a formalidade. Tentou sorrir para Tom, mas ele baixou o olhar, recebendo-o como visitante que era de facto.
Tom ofereceu-lhe vários aperitivos alcoólicos, sem sucesso, até Sebastian aceitar um copo de limonada, e saiu pela porta de serviço, ao fundo, a seguir à lareira.
Sebastian aguardou de pé, a olhar à volta, para os quadros, de românticas paisagens bucólicas, com ninfas desnudas na borda de lagos entre árvores e ruínas de templos clássicos, uns, e outros de retratos dos homens das várias gerações Thompson, que prosperaram a escavar a terra para arrancar carvão e ferro que moldaram carris, máquinas e armas de guerra.
Pensou que a mãe iria figurar bem naquele grupo. Tinha mais têmpera do que quase todos, diria, para ficar bem retratada naquele espaço de parede vazio, que a aguardava entre quarta e quinta janelas.

Tom retornou com um copo e a caneca de limonada numa bandeja de prata, ao mesmo tempo que passos ecoaram no hall, pela porta oposta.
“- My dear Seb, my lovely boy!”, disse Beatrice num sorriso contido mas sincero, enquanto atravessava o salão de braços abertos para o abraçar, e largar um ósculo junto à sua face direita, seguido dum chorrilho pausado de perguntas, cuidados, dúvidas e conselhos.

A mãe era de uma contradição surpreendente, capaz do maior cuidado e atenção, e, logo de seguida, alhear-se em descrições minuciosas de acontecimentos quotidianos, num monólogo entediante, que Sebastian entendia como uma afirmação de personalidade, mas também como a expressão da forma como os fortes escondem a timidez nervosa. Ela interessava-se genuinamente pela sua saúde e estafa da viagem, mas perdia-se nos seus pensamentos em voz alta. O ego sobrepunha-se à interação, mesmo com os mais próximos.
Sebastian tinha genuínos amor e admiração pela mãe, mas a sua inteligência e personalidade forte, tão apreciados e elogiáveis, maçavam-no na imposição de si própria no atropelo rápido de palavras e perguntas sem tempo para responder, mas a sua maturidade já lhe permitia ouvir sem ter a vontade imediata de partir que o fez correr o mundo.

“- Meu querido Sebastian, vá-se refrescar e arranjar para jantar, ao seu quarto.
Thomas ajuda-o com a bagagem, enquanto eu preparo o serviço do jantar.”

Sebastian mal teve tempo de pousar a bagagem no quarto que lhe destinaram, para descer à sala de jantar contígua ao hall de entrada.
Sentou-se à direita da mãe, que já o aguardava de pé, e foram servidos por Tom, que vestira uma jaqueta preta e luvas brancas, e por uma miúda tímida, com ligeiro sotaque irlandês, fardada de branco.
Comeram em silêncio, como sempre foram as refeições com sua mãe, com Tom discretamente atento na passagem para a copa, a coordenar o serviço da sopa de faisão, seguido de shepherd’s pie com cenouras e ervilhas, a terminar com trifle do qual Sebastian só se serviu de uma pequena porção, acompanhados de água e bom vinho português enviado regularmente, às caixas, pelos primos.
Os Thompson sempre se serviram bem, mesmo em tempo de guerra.

Depois de jantar, passaram para o salão, onde se sentaram para beber uma pequena porção de Porto.
Tom serviu e retirou-se fechando as portas. Beatrice bebericou o vinho de olhos fechados e começou a falar.

A Guerra do Peloponeso

A Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta, no século V a.C., foi a primeira guerra entre regimes políticos devidamente registada e documentada, confrontando a oligarquia espartana e a democracia ateniense. A guerra, violenta e atravessando toda a civilização grega, da Sicília à Ásia Menor, foi travada em nome da liberdade, reclamada igualmente por ambas as partes, mas entendida de forma profundamente diferente.

Em Atenas, as magistraturas e os cargos políticos eram escolhidos por sorteio, fazendo com que qualquer cidadão, rico ou pobre, fosse chamado a exercer o poder político directo durante o seu período de vida, permitindo-lhe governar e ser governado em superação da relação de mando e domínio que caracteriza a vida política tradicional. Qualquer um tinha, também, a oportunidade de se dirigir aos seus concidadãos na Assembleia onde todos os cidadãos assentavam, para expor as suas ideias e poder brilhar e ser admirado. Para evitar abusos, os mandatos eram limitados e promovia-se o escrutínio no fim da ação política.
Mas esta liberdade democrática não alcançava a esfera económica, mantendo-se profundas desigualdades e tensões sociais.

Por outro lado, Esparta era conservadora, austera e rigorosa, definindo liberdade como a oposição, no plano externo, às interferências impostas por estrangeiros que lhe negassem autonomia e capacidade para tratar dos seus próprios assuntos, e, no plano interno, como resistência às arbitrariedades permitidas pela espontaneidade, entretenimento, fausto e exposição pública da vida ateniense. A cultura do regime era a das chamadas boas leis, educação rigorosa, exigente e pública, contenção da individualidade, simplicidade, patriotismo, culto da pobreza e vida castrense.
Não existia o conceito de família. As crianças eram retiradas aos pais e treinadas para a guerra, praticava-se o infanticídio dos menos capazes, não havia o conceito de lar, marido e mulher. As refeições eram partilhadas num grande refeitório comunal.
Na economia, Esparta limitava rigidamente comerciantes e artesãos, condenava luxos e acumulação de riqueza, proibia deslocações ao exterior e entrada de estrangeiros. Cada cidadão recebia do colectivo da cidade um lote de terra pública, da mesma dimensão, para garantir sustento mais ou menos igual.
Os cargos públicos eram vitalícios, sem escrutínio, crítica ou desafio.

Enquanto a Atenas democrática era a turbulência ruidosa das suas assembleia, inconstância das decisões, lutas intestinas e movimento, Esparta era ordem, estabilidade e repouso.

Encontro similitudes à guerra do Peloponeso, nos dias de hoje, nos vários conflitos que grassam pelo mundo, da Coreia às Américas, passando pela Ucrânia e Gaza, e em posicionamentos político-sociais, na ascensão de novas – e ressurgimento de velhas – orientações políticas nos Estados Unidos e na Europa.

Esparta ganhou a guerra, em 404 a.C., derrotando Atenas na derradeira batalha de Egospótamos, encerrando a Era Clássica da Grécia Antiga.
A nossa guerra ainda decorre.

RJ, Centro

Num fim de tarde de emoções fortes, perdi-me sem desorientar no centro do Rio de Janeiro numa imersão no caos e opressão de história esquecida, do luxo e sofisticação incrustados na miséria desesperada dos sem abrigo, na herança imperial portuguesa e brasileira apagada na discutível modernidade de edifícios de vidro a sombrear palacetes e igrejas centenários sujos e gatafunhados, na tensão permanente dos olhares vazios e suplicantes de fome, de porcaria e alienação.
Nada aconteceu, nem perto esteve, talvez pela surpresa causada pelo improvável e descontraído gringo em plena Praça Tiradentes numa sexta feira chuvosa, 15 de agosto que não é feriado no Brasil.
A casa dos bisavós de uma memória contada com mais de cem anos, o paço imperial que acolheu a família real portuguesa, em fuga de Napoleão, desembarcada no cais do Carmo, hoje um monumento esquecido numas ruínas preservadas no meio da praça de terrenos conquistados ao mar, a sombra do arranha céus da sede provisória da Petrobras de má fama sobre tanta história de ruas tão bem descritas por Machado de Assis de comércios decadentes e camelôs de rua porta com porta com o melhor da Farm Rio, maltrapilhos de bicicleta enxotados pela sineta do metro de superfície na modernidade da Avenida Rio Branco, os melhores restaurantes de autor entre modestas vendas de oportunidade e sobrevivência, a roda de samba no Armazém do Senado, novo spot de encontro de turistas e campeões do samba, mantido por resistentes portugueses tropicalistas herdeiro de uma velha mercearia de bairro vende tudo que foi, com certeza, frequentada pela criança minha avó que morava uma centena de metros abaixo na mesma rua.

Eu também sou carioca. Sinto esta emoção, esta revolta por tanto potencial desperdiçado, este calor e humidade fértil de natureza e talento, estas cores impositivas, o barulho e movimento permanente. Sinto que também nasci nesta Rua do Senado, nesta cidade histórica imperial que tanto deu ao mundo, em samba, futebol, bossanova e talentos vários, que ainda tem tudo para dar.

Eles

Reconfortados no sol quente de fim de tarde de primavera ainda fresca, partilhavam as dúvidas, remorsos e lamentos do acumular de erros e hesitações da vida madura, procurando mutuamente o apoio improvável no aproximar dos espíritos, sempre arriscado pelo despoletar do desejo, ainda que travado e temperado pela memória das precipitações do passado que tanto os assombra.
Confessaram pecados, recordaram experiências duras, encobriram vergonhas destapadas, renderam-se ao destino final, prometeram ajuda incondicional, tiveram vontade de dar as mãos, de abraçar de apertar, de beijar, de chorar, de lamber a mágoa.
Não se mexeram. A condição, o local, a moral, a preservação do respeito, a garantia do amor leal já conquistado, não permitiram.
Ele, num movimento atrevido, esticou o braço e tocou-lhe o ombro com dois dedos. Ela não se afastou nem rejeitou. Só olhou na direção do sol, como a justicar o calor sentido.
Os dedos sentiram o tecido da camisa, imaginaram a maciez da pele, esbarraram no elástico da sustentação do que nem quis imaginar. Ela esticou o pescoço e cruzou a perna, num estiramento de relaxe.
Ele baixou o tom de voz, grave, e só lhe disse que gostava dela. Conteve-se.
Não se aproximou, não lhe cheirou o pescoço, não lhe mordeu o lóbulo, não lhe murmurou ao ouvido tudo o pensava e tanto queria, não a abraçou, não a apertou, não a sentiu a entregar-se, não lhe desapertou outro botão nem afastou outro elástico para lhe sentir o calor húmido de mulher.
Não. Mas prometeram-se em silêncio, no seu jeito estranho que sabem como é, paciente, que os sustenta e aproxima.

Josefina Madeira . 25

A última curva abria a paisagem sobre a vila de pequenas casas, de chaminés negras de fuligem da queima da hulha, emparedadas a tijolo vermelho e geminadas em ruas de habitação de mineiros, operários e ferroviários, entrecortada pelo brilho dos carris reluzentes na linha do comboio que saía do túnel escuro até se perder no meio verde de suaves colinas a caminho do mar, com telhados molhados reflectindo o sol tímido de fim de tarde à espreita entre rápidas nuvens cinzentas empurradas pelo inclemente vento do mar do norte.
Parou na berma, desligou o motor, desabotoou o casaco, tirou o capacete e os óculos, baixou o lenço da face para sentir o cheiro a terra molhada e vegetação putrefacta batido na cara pelo vento húmido desta charneca por onde passou a outra metade da sua infância, e, sentado na Bessie, deixou-se como o cavaleiro no promontório do terreiro de luta nos alvores da derradeira batalha, debatendo-se sobre a vida passada, ainda curta, mas preenchida, as suas dúvidas e pequenas angústias, o sentido da sociedade e da civilização, a sua falta de apego aos básicos valores que invejava nos outros, o fingimento que o tornava normal, o temor de se mostrar excêntrico, esse questionar de tudo que lhe perturbava o sono.

Desceu o troço final das últimas centenas de metros do longo caminho dos últimos dias, até às primeiras casas.
Toda a Grosmont estava igual com a excepção de alguns asfaltamentos novos reluzentemente marcados a branco, discretos reclamos luminosos que despertavam sobre pequenos novos comércios em casas velhas de outras vendas de vidas passadas noutras décadas, ao longo da via principal, e automóveis, não muitos, mas mais do que alguma vez se recordara de ver por ali, num sinal promissor de progresso e gente nova que estava ansioso por confirmar.
O ronco do escape ecoou nas ruas estreitas, de apertados cruzamentos e curvas fechadas, já iluminadas pelo farol da motocicleta, até se abrir o espaço aberto da longa recta de asfalto paralela à linha férrea, da saída para Whitby.

Meia milha depois do fim do casario surgia do lado esquerdo, oposto ao caminho de ferro, num plano superior à estrada, a longa fachada fabril, verde com um friso de vidros canelados a meia altura, a encimar um longo jardim relvado com arbustos rasteiros, em declive até à berma do asfalto.
A meio, um grande portão abria até baixo, rasgando o jardim, permitindo cargas e descargas ao nível da estrada, de onde um par de carris atravessava a estrada até à linha férrea, e a uma plataforma giratória que permitia rodar os vagões noventa graus, alinhando-os com a direção da linha num pequeno ramal paralelo.
No fim do edifício da fábrica, o jardim subia até um velho carvalho, mais velho do que a própria vila e tudo o que por ali se construíra nos últimos duzentos anos, majestoso sob o relvado, unindo, num contínuo de verde, a cornija fabril às portadas de madeira do primeiro andar da residência Thompson.
A casa impunha-se sobre a estrada, a um carvalho de distância da fundição barulhenta e fumegante. Um passante desatento diria que era uma outra entrada do mesmo edifício, da mesma fábrica, pela arquitetura da mesma época da construção do caminho de ferro.

Reavivou as memórias de infância.
O pequeno portão com um degrau junto ao asfalto, a entrada de pedra de dois vãos de escadaria, à esquerda e à direita, iguais e simétricos, em quadrado, com um tufo de relva ao centro, noventa graus para os primeiros sete degraus, outros noventa para mais nove degraus virado para a casa, outros noventa para mais onze contrários aos primeiros até à junção dos dois caminhos no largo patamar pétreo defronte à porta principal.
Subiu pela esquerda, como sempre. Aquele lado era-lhe familiar, confortável como uma superstição.
Poderia ter entrado pela porta de serviço, em rampa, por onde entravam os carros da casa e das visitas, contornando o terreno que se estendia ao longo da estrada, e estacionado na gravilha a seguir à casa, mas sentia-se como um visitante que chega sem aviso. Tinha escrito à mãe, a dizer que vinha no fim do mês, mas o fim do mês tem dias, mais de uma semana, como na regressão para as calendas vindouras.

Já era noite. A Bessie ficara na rua, mas não por muito tempo, só o suficiente para os cumprimentos, satisfações e felicitações do reencontro após tantos anos – quantos anos? Cinco. Cinco anos é muito tempo. É um quinto da vida de um jovem antes dos trinta anos. Um quinto pode ser pouco, dirão, mas é suficiente para mudar de vida, crescer, transformar, viver, arruinar, ou morrer.

A porta, de duas folhas de madeira, pesada, também verde mas num tom mais escuro do que o da alvenaria, com dois vidros do mesmo canelado dos vitrais da fábrica, arqueada com bordadura cinzenta, centrava as cinco janelas para cada lado, no rés do chão, e secundava o vitral que se lhe sobrepunha, no primeiro andar, que também centrava outras cinco janelas à esquerda, simétricas das da direita.
Pisava aquelas pedras, olhava em volta, e recordava a sensação, de criança, daquele ordenamento ortogonal, recto, simétrico, sem alma nem criatividade, memória de um tempo industrioso, rico, determinístico, que já passou.
Havia luz na última janela do lado esquerdo, no quarto principal, no topo virado ao carvalho e à fábrica, e nos vitrais da entrada, da refracção da luz de presença da escadaria interior, que se recordava estar ali.
Largou duas vezes o pesado batente. A modernidade da anunciação elétrica ainda não tinha irrompido nestas paragens. Ou se calhar já, mas a teimosia da certeza das coisas mantinha o que se julgava ser certo e definitivo.

A luz de dentro ficou mais forte e de seguida acenderam-se os dois candeeiros laterais. A porta abriu-se a um homem calvo, mas ainda jovem, com calças de uniforme de trabalho e jaqueta de malha. Olhou sério e fixamente antes de perguntar:
“- Good evening, sir. Do you have an announcement or require any assistance?”
“- Don’t you recognise me, Tom?”
O homem franziu o sobrolho e manteve a inexpressividade de contida incompreensão.
“- I’m afraid I don’t, sir.”
“- I’m Sebastian, the expat.”
Tom Sherman recuou um passo, deu passagem, e curvou ligeiramente a cabeça, sem desviar o olhar, discretamente curioso, para Sebastian.
Mantinha a austeridade da juventude. Todo ele era uma história de vida.

Era o filho de Samuel Sheman.
Samuel fora um vigoroso e competente encarregado fabril, exímio no cumprimento das ordens, imposição da disciplina e particular aptidão para a mecânica, veterano de França, condecorado por bravura na batalha de Somme. Sebastian não se recordava de Samuel mas a história fora contada e repetida vezes sem conta na sua infância.
Herói de guerra, forte, corajoso, líder, inteligente, rapidamente se destacou no trabalho da fundição, principal empregadora da terra. Não tinha horários, a energia era inesgotável num poço de força, sagacidade notada, mas também não conseguia esconder os fantasmas da violência da guerra.
Bebia demais, não evitava rixas no pub, e era temido pela particular violência que empregava, obrigando vários homens a segurá-lo para evitar consequências extremas, como se a explosão de fogo e trovão dos canhões, os espetos dos estilhaços dos morteiros, a correr entre os cambaleantes camaradas gaseados e os gemidos dos moribundos a chamar a última vez pela mãe, a escorregar no chão da trincheira enlameada de sangue e tripas dos esventrados à baioneta, lhe toldassem a cabeça quando ultrapassava o limite que ninguém sabia onde estava, numa simples provocação.
A década de vinte foi de expansão e crescimento económico, de encomendas para o ano inteiro mas também de extensas mudanças sociais. As mulheres entraram para a produção fabril para ocupar os lugares deixados vagos pelos jovens mortos e estropiados na guerra, e ganharam o direito a voto, equilibrando os orçamentos familiares, criando tensões nas dores de crescimento e desenvolvimento da sociedade local, pressionando o emprego, vagando os lares, concorrendo nos pubs, falando alto a fumar em público. Ao mesmo tempo, os bolcheviques organizavam a revolução inspirada em 1917 com permanente ameaça de greve e cada vez mais influência na gestão e planeamento do trabalho. No Yorkshire de 1920 não se vivia a tensão das fábricas de Birmingham, mas as células comunistas estavam instaladas nos meios de produção, articuladas com a internacional socialista.
Foi neste combate que Samuel se destacou, ao lado dos Thompson, impondo a sua força e autoridade, principalmente nos anos a seguir a 1929, em que o estalar da crise pareceu vir dar razão aos prognósticos do fim do mundo liberal capitalista.

O guerra voltou em 1939, no que parecia ser uma refrega simples e rápida no leste da França, travada na linha Maginot, mas o rápido avanço alemão, atropelando a neutral Bélgica, e o cerco embaraçoso de Dunquerque em maio de 1940 demonstrou o real perigo do monstro nazi.
Foi neste maio de 1940 que a família Thompson é surpreendida com o irrompimento da polícia na sua fundição para a detenção de Samuel Sherman, acusado de conspiração e traição ao Rei. Sem ninguém saber na sua terra natal, Samuel era membro do British Union of Fascists desde 1932, e participara na batalha campal de Cable Street, no East End de Londres, em 1936, ao lado de Oswald Mosley, fazendo-lhe a guarda pessoal.
Ficou detido até 1945. Nesse período, os Thompson acolheram em casa o jovem adolescente Thomas Sherman, que já havia perdido a mãe anos antes, como aprendiz, por caridade e reconhecimento pelo leal passado do pai, agora traidor.
O pai Samuel voltou ao trabalho no fim da guerra, com cadastro de traição mas sem factos que justificassem mais detenção após a incondicional derrota fascista, num ambiente pesado.
Perdera a posição de chefe e não se integrava com os colegas que não lhe perdoavam a traição aos familiares e amigos mortos na guerra.
Apareceu morto, algumas semanas depois, esfaqueado na madrugada e largado na valeta da estrada para Whitby. A investigação policial foi sumária e convenientemente inconclusiva.

O jovem Thomas revelou-se reconhecido, trabalhador, um exímio motorista, e tornou-se o fiel lugar-tenente da agora gerente da fábrica, a viúva Coleman, mãe de Sebastian, herdeira da família Thompson.
Tom era cinco anos mais velho do que Sebastian. Em 1945 tinham quinze e dez anos, aquela diferença de idades tão distante na infância e juventude, que se aproxima no início da meia idade.
Eram praticamente uns estranhos.
Sebastian estivera sete anos no colégio interno, mais quatro no serviço militar, prosseguindo outros cinco anos em Portugal, com meses de intervalo, passara dezoito anos fora de casa, enquanto o tímido e reservado Tom aproveitara a benevolência dos Thompson para sobreviver e reintegrar-se na sociedade local, aprender um ofício, e ambicionar uma posição que a falta de herdeiros naturais Thompson lhe proporcionaria, não esquecendo, mas camuflando, a vergonha e mácula deixadas pelo seu pai.

A reserva e frieza servil, embora digna, de Thomas Sherman, coincidia com a descrição regular e meticulosa nas cartas que Sebastian recebera de sua mãe.
Beatrice Coleman mantivera sempre o hábito da escrita semanal para o seu único filho, mantendo-o ao corrente dos seus sentimentos e pensamentos, descrevendo as vitórias e dificuldades do seu dia a dia profissional e pessoal, não porque fosse particularmente extrovertida ou sentimental, mas sim pelo desejo secreto de o trazer para a origem, responsabilidades e tradição da família.

Deixa lá!

12.
“…
Que há de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.
…”

(in Livro do Desassossego, Fernando Pessoa)

Famintos

Thomas Mann, in Os Famintos – Estudo, Contos.

“Este anseio, ele bem o conhecia! «Nós, os solitários», assim escrevera um dia, algures, em hora de confissão silenciosa, «nós, sonhadores isolados, nós deserdados da vida, que passamos os nossos dias introspetivos num à parte, num de fora artificial e gélido… nós, que espalhamos à nossa volta um sopro frio de invencível estranhamento, mal deixamos ver, entre seres vivos, as nossas frontes marcadas com o signo da sabedoria e do desalento… nós, pobres fantasmas da existência, abordados com tímida consideração num encontro, e deixados novamente entregues a si próprios logo que possível, para que o nosso olhar oco e sapiente não estorve mais tempo a alegria… todos nós acalentamos uma furtiva, devoradora nostalgia do inocente, do simples e do vivo, de um pouco de amizade, abandono, confiança e felicidade humana. A «vida» da qual somos excluídos não se nos apresenta como visão de magnitude cruenta e beleza selvagem, não se nos apresenta a nós, extraordinários, como o extraordinário; pelo contrário, o normal, o amorável, o decoroso, esse é o reino da nossa nostalgia, é a vida na sua sedutora banalidade…!”

Rio de Janeiro

Ao amanhecer do dia 1 de janeiro de 1502, os três navios da pequena frota capitaneada por Gaspar de Lemos entravam na embocadura de um enorme rio de águas salgadas.
A euforia instalava-se entre a cansada mas esperançosa tripulação. Tinham largado a barra do Tejo, em março, com a missão de aportar as Terras de Vera Cruz, cartografar, medir, registar, informar a corte de Lisboa da dimensão e riqueza da descoberta acidental de Pedro Álvares Cabral no ano anterior, trazida em carta de Pero Vaz de Caminha, em mão pelo próprio Gaspar, no interrompimento e retrocesso parcial da histórica e acidentada segunda expedição à Índia.

Gaspar de Lemos sabia por onde andava
Tinha secundado Álvares Cabral até Porto Seguro, retrocedido a casa a dar a notícia do achamento, e agora voltava com a sua própria expedição, armado de cientistas e sábios, entre eles o cartógrafo florentino Américo Vespúcio, e de padrões reclamantes da posse real das terras. Mesmo assim, pasmava-se com a enorme extensão de terra revelada desde que acostaram na batizada Baía de Todos os Santos, a 1 de novembro, passaram pelo Porto Seguro e seguiam para sul.
A foz de um rio daquela dimensão abria perspectivas e sonhos de riqueza na exploração do interior do que se mostrava um enorme continente. A floresta densa e luxuriante, as aves ruidosas e coloridas, a brancura dos extensos areais ornamentados de enormes penedos de cúpula arredondada, a bondade de inocentes indígenas que lhes acenavam com curiosidade, impressionavam aqueles europeus rudes que fugiam às doenças e dificuldades de um continente sem recursos, superpovoado e em guerra.

Só não sei se foi Lemos ou Vespúcio quem batizou o Rio de Janeiro no primeiro dia do ano de 1502, naquele delicioso erro que eternizou a cidade maravilhosa, ao não darem ouvidos aos guaranis que lhes gritavam da praia que aquelas águas eram uma baía, um braço de mar, na sua língua tupi: “- Guanabara!”

Conto de Natal

Escreviam horas por dia, ele à janela, ela junto à lareira, num silêncio sereno de rotinas simples de quem se aceita e compreende, como se fossem de um para o outro desde o início, de refeições simples e prontas servidas da dispensa e do frigorífico, abastecidos em tempo quando decidiram recolher-se na montanha nevada, no fim do outono, sem telefone nem televisão ou internet, num retiro de cura emocional e inspiração criativa a que os dois se proporcionavam pela paz partilhada em longas horas de silenciosa companhia de olhares ternos e protetores, no alívio de tormentos confessados no calor do fogo ao serão, e nas longas noites retemperadoras de sono abraçado.
Quando a primavera floresceu, tinham muito mais do que dois livros feitos. Tinham histórias, aventuras, ensaios, um amor simples e diferente dos outros, e dos inventados no papel, que não conseguiam descrever, mas dava-lhes sentido à vida.

Terapia

Seis meses de viagem à volta do mundo, de cores, ruídos, desilusões e deslumbramentos, longas horas de ligações, caminhadas, refeições, esperas e corridas, e o descanso entrelaçado, pele a pele, ao fim do dia, sem vergonha de mostrar como se é, nem tenção de exibir o que nunca se será, num suar relaxado de medos, segredos e promessas de amor eterno murmurados ao ouvido.

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