Os seis anos de Luísa vinham carregados de dúvidas. Na escola, os desafios que lhe lançavam não saciavam toda a sua curiosidade, pelo que diariamente aguardava a chegada a casa do pai para o interpelar sobre os mais variados temas. Todos os dias havia uma dúvida nova que fazia sorrir o pai por detrás da cara sisuda que sempre lhe mostrava. Com as crianças há que parecer sério, pensava; para infantilizados já elas têm os amigos, ponderava o progenitor. Mas nem a cara grave do pai demovia Luísa de o questionar com porfia. As perguntas tanto podiam ser sobre pássaros e minhocas, como flores e frutos. Desta vez o que intrigava a petiz eram as palavras…
– Ó pai, afinal as palavras contam? – soltou a menina, com uns olhos redondos preenchidos com dúvidas.
O pai, obedecendo ao critério do rosto austero, franziu o sobrolho para avançar:
– Não estou a perceber a tua pergunta, Lu, o que queres dizer com isso?
– Ora, isso mesmo! – atirou, segura – Hoje na escola aprendemos os números que usamos para fazer as contas…Mas os números são palavras! Então, as contas são feitas com as palavras, certo?
Desta vez o pai não conseguiu evitar o riso.
– Tens razão, as palavras contam. É com as palavras que fazemos tudo. Se não houvesse palavras tudo seria mais difícil. Não seria fácil pedir, perguntar, responder, agradecer, escrever, desculpar, ensinar, informar, explicar…e, até, contar!
– E também contam histórias – acrescentou, entusiasmada, a garota.
– Claro, as palavras contam…e muito! Contam histórias, contam números: contam contos e contam contas. Para além disso, vou-te dizer algo muito importante sobre as palavras – murmurou o pai, enquanto se curvava sobre a garota como se lhe estivesse a sussurrar um segredo – as palavras estão lá para ti….podes contar sempre com elas.
