Alma e a vida

Alma passou toda a vida a imaginar que um dia aquele momento chegaria. Aconteceu. Evitou pensar nele enquanto pôde, mas havia alturas em que determinadas situações o destapavam mais do que ela gostaria. Desassossegava-se. Não gostava de o ver assim, nu, a acenar-lhe insolente, o tal episódio. Como um herpes latente que se manifesta perante uma baixa de defesas, assim era a sua inquietação. Enervava-se. Por mais previsões que tivesse feito, sentia que não estava preparada para lhe dar resposta e isso deixava-a desconfortada. Revolvia-se. Era mãe de uma menina há 15 anos. Planeara-a. Durante 15 anos foi construindo para ela um abrigo que julgava ser à prova de tudo. Esforçou-se. Agora, porém, percebia que não havia blindagem possível para aquela questão. Frustrou-se. A sua filha passava por aquilo que também ela vivera. Repetia-se. A adolescente questionava-se sobre o que fazer. Alma também. A garota queria ter respostas. Alma também. Chegara o momento em que a vida tinha para revelar algo muito importante à jovem. Chamou-a a um canto. Assegurou-se que ninguém ouvia o que lhe sussurrava. Parecia, até, algo entusiasmada enquanto lhe fazia a confidência. Disse-lhe ao ouvido “eu não faço sentido”. A miúda não percebeu. “Não há uma lógica em mim”, continuou trocista. Porquê? “Porque eu é que decido”. Rematou. Alma sabia que aquele era o momento em que tudo podia ruir. Suspirou. Como explicar à filha que tudo o que lhe transmitira até ali de pouco lhe servia? Hesitou. Como assegurar a manutenção da diferença entre o bem e o mal explicado ao longo daquele quindénio? Não sabia. Mais difícil: como insistir que o bem devia sempre prevalecer? Ignorava. Contra a vida não há argumentos. Aceitou. A filha experienciava a primeira grande injustiça que a vida lhe tinha destinada. Resignou-se. Os quarenta anos dela sabiam que era isso mesmo: a primeira injustiça; de tantas; de muitas; das que viessem; das que tiverem de ser. Consolou-a. Era só isso que podia fazer. Ouviu-a. A miúda chorou. Amparou-a. A filha soluçou. Agarrou-a.
Queria sovar a vida. Pedir-lhe explicações. Perguntar-lhe quem é que ela pensava que era. Agarrá-la pelos colarinhos. Amaldiçoá-la. Chamar-lhe nomes: manhosa, injusta, maquiavélica, ardilosa, errada. Desejar o mesmo para os filhos dela, não fora esta ser uma reles infértil, estéril, árida, seca e infecunda…vidas.

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