O aniversário

A manhã ainda não tinha rompido e já Joana pulara da cama, aos saltos com o entusiasmo que sempre a acompanhava naquele dia. De mão dada com a excitação, descia as escadas de dois em dois degraus, mostrando como chegavam saudáveis os dez anos ao seu corpo ágil de gaiata. Pelo caminho abraçava-se a Tim-tim, o pequeno cão malhado que se juntava à euforia da garota sem saber a que se devia tal alegria. Era assim todos os aniversários. Ao passar pela cozinha ainda deserta, espetava o dedo à roda do bolo cor-de-rosa para lhe desenhar um sulco a toda a volta. Com o indicador cheio de massa, abria a boca como podia para se deixar deliciar com aquela pasta doce e mole. Os dedos sobravam depois para Tim-tim que os lambia de olhos fechados com o mesmo deleite. O destino era a casa na árvore que o pai tinha construído com ela antes do acidente. Entre aquelas quatro paredes de madeira Joana sentia-se aconchegada e jurava que o perfume do pai ainda ali pairava. Para além disso, era naquele local que a mãe lhe deixava sempre o seu presente de aniversário. Joana fazia anos um mês depois das suas melhores amigas, Sofia e Lara, por isso divertia-se com os presentes que estas recebiam, enquanto ficava a aguardar pelo dia em que a mãe lhe oferecia o seu. Assim que chegou ao último degrau da escada de madeira, com o cão enfiado numa sacola que levava traçada ao dependuro, olhou para o capacete do pai que estava pousado numa mesa improvisada. Os riscos que traçavam o capacete, riscavam-lhe também a alma. Apesar de ter aguentado todos aqueles cortes, o capacete não foi capaz de proteger totalmente a cabeça do pai. A mãe contara-lhe que o pai não ficara com nenhuma marca exterior, mas o cérebro dele não tinha conseguido travar com a energia necessária e embatera no crânio com algum impacto, tendo-se magoado tanto que nunca mais ficou forte o suficiente para devolver ao pai a vitalidade que ele precisava. Morreu feliz – sossegou-a a mãe – a fazer aquilo de que mais gostava a seguir a brincar com ela. Joana sonhava com o dia em que também ela iria ser feliz a passear de mota e contava pelos dedos da mão os anos que ainda faltavam para tirar a carta. Por ora, Joana tirava outro tipo de carta: aquela que todos os anos a mãe lhe escrevia por ocasião do seu aniversário e que depositava fielmente dentro do capacete do pai. Há cinco anos que aquele era o seu presente. Embora fosse sempre o mesmo, era sempre diferente. A mãe começou aquele hábito depois do acidente e quando ela aprendera a ler e, desde então, Joana recebia aquela prenda com o entusiasmo de quem recebe a melhor oferta de todas:

 

Querida Joana,

Este ano foste uma menina espetacular. Não podíamos desejar ter uma filha melhor!

Estás cada dia mais bonita e esperta. É um orgulho muito grande sermos teus pais. Sabemos que tens algumas dificuldades com as contas, mas “conta” connosco para que isso atrapalhe pouco a tua vida. O que nos fartamos de rir com o episódio em que trocaste a ordem das letras e disseste que estavas “Apatralhada” com a matemática. Que bela “trapalhada” que tu fazes com os números, isso sim. Sossega, vai correr tudo bem e vais conseguir fazer todos os cálculos que forem necessários para a tua vida.

É uma alegria observar o jeito que tens para as artes e deixa-nos dizer-te que a casa ficou muito valorizada com o quadro do arco-íris que pintaste na aula de Expressão Plástica. Temos artista! Vamos querer mais obras de arte, continua no bom caminho…

Ainda estamos a bater palmas ao teu cinturão novo do karaté (que ninguém se meta contigo). Ainda assim, não temos medo de te castigar quando o mereces: foi o caso daquele dia em que respondeste com uma palavra feia ao primo. Sabes bem que nunca vamos tolerar falta de respeito e asneiras, mas tu és muito justa e soubeste pedir desculpa – o que nos encheu de alegria e de vaidade. Sim, somos vaidosos de ti e sempre que alguém te fizer sentir menos importante, lembra-te que és desejada ao máximo por duas pessoas:

A mãe e o pai

Parabéns, querida

Leave a comment

Design a site like this with WordPress.com
Get started