Qual é o tamanho do maior amor que pode ser servido?
O amor vem em doses pesadas por uma balança ou em tamanhos medidos por uma fita métrica? É servido em pacote ou vendido em separado? Pode levar-se em takeaway ou é para ser consumido na loja? Podemos usar sem moderação ou arriscamos overdoses? Haverá efeitos secundários para a sua sobredosagem? É aditivo? Temos de compensar o seu défice? Necessita de prescrição? Como sabemos qual é a sua medida exata?
Um dia ele disse-lhe a ela: serei para sempre o teu porto de abrigo porque tu és o meu “amor maior”. Ela não sabia o que era isso de abrigo e pouco sabia sobre as dimensões do amor. Como não sabia, confiou. Não que também soubesse alguma coisa sobre as medidas da confiança, mas usou o intuitómetro. Acreditou. Sempre gostara de portos. Eram um dos seus cenários preferidos. Os recantos de águas mansas, onde barquitos convivem com ratos e gaivotas em aparente paz, sempre lhe transmitiram muita calma. Gostou de se imaginar aninhada nessa imagem. Primeiro, viu-se como um barco azul e branco, com bandeiras pequeninas e coloridas a baloiçar ao ritmo dolente da água; mas, depois, vestiu a pele de uma gaivota, como aquela que o Sepúlveda ensinou a voar, que não tinha as amarras do barco, mas servia-se da mesma tranquilidade. Deixou-se ficar muito tempo nesse porto, sem nunca ter quantificado o tal “amor maior”. Sabia que “maior” pressupunha a existência de outros, mas não perdeu tempo em coligir quais seriam todos os amores do seu porto de abrigo.
Um dia ele fez um disparate; desses que são tão insignificantes que nem merecem ser aqui contados. Com medo de ser julgado por essa asneirada, cometeu outra maior: de forma torpe e acobardada sacudiu para ela a culpa da sua tontaria, sacudindo vorazmente as águas do porto onde lhe prometera segurança. Os barcos agitaram-se, chocando uns contra os outros, rasgando madeiras e abrindo fendas, agrilhoados que estavam naquele cais; mas as gaivotas voaram. Voaram para onde a liberdade delas as permitia voar. Do alto, puderam ver melhor todas as proporções. Percebia-se agora que aquele porto fora desenhado e construído à medida de um grande afeto, mas arquiteto algum morre pela sua obra…há um amor que supera qualquer outro: o próprio.
