Castelos de areia


O castelo de areia era feito com a mesma areia, com o mesmo tipo de balde e com duas pás iguais, mas ainda assim a ala norte da construção era forte e esbelta, enquanto a frente sul ameaçava já começar a ruir. O pai sorria a olhar para os dois rapazes: como podiam ser tão fisicamente parecidos e tão talentosamente diferentes. No Mateus tudo era harmonioso e estético; cada ameia da sua torre estava perfeitamente delineada por uma massa que mais parecia ter cimento nela; e no balde não restava um grão de areia que fosse. Já no João tudo era tosco e rápido; o forte era fraco, construído de forma torpe e atabalhoada, com metade da areia a ficar colada nos cubos ocos do fundo do balde.

Quanto mais o sol lhes tisnava a pele morena, mais lhes clareava as madeixas do cabelo que iam ganhando matizes douradas. Os dois tinham olhos cuja cor mudava consoante o cenário do fundo: junto ao mar adquiriam um suave tom azulado, mas na areia ganhavam um doce brilho de mel. João cansava-se muito mais rapidamente das brincadeiras e exigia, por isso, uma atenção diferente do pai. Enquanto Mateus aprimorava a sua arte, já João tinha puxado o pai para um jogo de bola e para uma partida de raquetas. Apreciando o conforto que um filho como o Mateus lhe dava, o pai ia, porém, estreitando mais os laços afetivos com João que o obrigava a uma atenção e cuidados redobrados. 

Naquela tarde, o sol estava especialmente quente, escaldando a areia que não era molhada pelas ondas. A água estava fria para aquela época do ano e aliviava os corpos entorpecidos pelo calor. Apesar das altas temperaturas, a energia do João não lhe dava descanso, nem aos pais. O garoto pediu aos dois que fossem brincar com ele para dentro da água, ao que os dois acederam, mais motivados pela necessidade de arrefecer do que para fazer a vontade ao filho. Na água, o instinto materno não deixava de lançar um olhar regular ao Mateus que preferira ficar a escavar um fosso para dragões à volta de todo o castelo. Num desses momentos, a mãe viu Mateus tombar com força para a frente, destruindo a ponte levadiça que moldara com tanto afinco. Percebendo que algo estava mal, e ignorando o cuidado a ter com as rochas afiadas, saiu a correr do mar, lançando-se para acudir o garoto. Quando o alcançou, este estava inanimado e tratou de lhe tirar as postas de areia que lhe enchiam a boca. Como uma louca, começou a gritar por ajuda, a que respondeu de imediato o marido e metade da praia. Ao telefone com o socorro já um banhista tratava de dar as indicações precisas quanto ao local. A ambulância não chegava ali. Os nadadores-salvadores rapidamente se articularam com os médicos para levar a criança até ao parque de estacionamento mais próximo. O pequeno veículo todo-o-terreno destruiu o que restava do castelo infantil para acomodar a mãe que exigia segurar a criança no colo, não deixando os homens levarem o seu filho. Aquele carro trator não demorou a chegar à sirene que captara a atenção da outra metade do povo que, até então, ainda não se tinha apercebido do drama que se vivia. Mateus continuava inconsciente, com a cabeça pendente, e foi arrancado dos braços da mãe para ser colocado na parte de trás da ambulância. A porta traseira bateu com força, pondo fim ao voyeurismo dos banhistas que se acotovelavam para tentar ver a tragédia. As lágrimas da mãe foram encaminhadas para o lugar de pendura e o veículo azul e amarelo arrancou, deixando para trás uma nuvem de poeira e uma tenebrosa melodia de alarme que ia perdendo volume. 

Desorientado, o pai procurou reunir todos os pertences, para levar o João para o carro onde pensaria melhor o que fazer. Já não sentia a chama da areia, embora o petiz chorasse por colo. Arrumou-o, juntamente com o chapéu de sol, debaixo do braço e apanhou apenas o saco com os documentos, deixando para trás as toalhas, os baldes e as pás que estavam espalhadas pelo solo. Quando chegou ao carro perguntou-se porque não deixara também o chapéu de sol e atirou-o para uns arbustos, colocando o João na cadeira das crianças, enquanto lhe apertava com força o cinto de segurança. Não sabia para que hospital ir. Não sabia, sequer, onde ficava ali algum hospital. Gritou a um dos empregados do bar de praia que lhe indicou as urgências, a dez quilómetros dali.  Só a preocupação com o João o fez frenar nos semáforos, onde, ainda assim, passou todos os vermelhos, assinalando com os faróis e a buzina um frenético desespero. A criança berrava quando chegaram à porta das urgências e um segurança os obrigou a estacionarem o carro, porque este não podia ficar a barrar a entrada dos veículos de socorro. Conduziu o carro às cegas até ao parque, deixando-o parado no meio da via. Com o filho ao colo, e não vislumbrando a mulher, correu até à receção. Mateus. Filho. Tombou. Praia. Mulher. Ambulância. A estrutura das frases, diria que a tinha perdido pelo caminho. A funcionária compreendeu, habituada que devia estar à universal linguagem da aflição. Lançou-lhe um dedo indicador para a esquerda para onde ele voou. Num corredor frio e escuro encontrou o choro de uma mãe que se agarrou a ele e ao filho. Levaram-no. Não sei nada. O meu menino. Quero ir com ele. A mesma linguagem do pai: compreendiam-se. O choro era o seu novo canal de comunicação e dizia o que os dois queriam dizer: dor, dor, dor. 

A luz ao fundo do túnel, que dizem existir, não iluminava aquele corredor. Do seu fundo só escuridão. Era um corredor estéril, de onde não saía nada. Vivalma. Vazio. Vácuo. Vento. Assim ficaram os três, agarrados, encolhidos numa massa única, fundida no sofrimento. Apertavam-se para se fazerem mais pequenos, esperando que assim a tragédia não os visse e passasse por eles para ir procurar outros. De repente, a esperança surgiu na forma de um gigante que vestia uma bata branca e que lhes vomitou para cima uma palavra: leucemia. O Mateus debatia-se com uma leucemia que se manifestou mais visivelmente naquela tarde de praia quente. O alívio de saber que o menino estava vivo misturou-se com o terror da palavra e deu origem a um sentimento novo: medo. Perguntas. Muitas perguntas. Respostas. Poucas respostas. Era urgente encontrar um dador e a família era sempre por onde se começava. De imediato, os três foram submetidos a análises, enquanto chegavam familiares e amigos que aumentavam o leque das difíceis possibilidades.

Foram muitas as horas de angústia até chegar o veredicto final: João era a combinação perfeita, o dador ideal, o super-herói do irmão…Ainda não tinham acabado de respirar fundo, porém, já o médico abanava com um outro sobrescrito e pedia aos pais para lhes falar a sós. Avançaram corajosos: não havia nada que lhes pudessem dizer que afastasse aquele bálsamo de alívio. Com o jeito pragmático que é conhecido aos homens das ciências – que parecem ignorar o colorido da vida, substituindo-o por relatórios e radiografias escuras – o médico ditou-lhes que as análises ao sangue haviam revelado um outro dado surpreendente: as duas crianças não eram filhas do mesmo pai. Pausa. Pausa. Pausa. Olhos-nos-olhos. Olhos-perdidos-nos-outros-olhos.

Como podia ser? Interrogaram-se. As crianças nasceram no mesmo dia, com o João sempre mais apressado a sair com quatro horas de avanço em relação ao irmão…O médico deixou novamente as cores de lado para explicar com frieza o fenómeno da “superfecundação heteropaternal”: é possível acontecer quando dois óvulos da mesma mãe são fecundados por homens diferentes. Ocorre quando uma mulher, ovulando, mantém relações sexuais com diferentes homens num curto intervalo. Os bebés partilham o material genético da mãe, mas crescem em placentas diferentes. 

A explicação é curiosa e o fenómeno até teria graça, se não levantasse aqui a pequena questão moral. Perante o silêncio da mãe, a voz do pai soou demasiado alta: qual dos dois é o meu filho?

Nenhum dos dois, rasgou o médico, colocando cuidadosamente a folha de papel dentro do envelope

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