Contamo-nos em gerações, agrupados como se cada uma fosse um pacote que se abre anualmente. Todos com as mesmas promessas, sonhos e planos, firmes, tesos, orgulhosos, uniformes, lineares, decididos, verticais, calibrados, medidos, iguais, prontos a ser lançados na panela da vida do grande chefe do universo.
Água, calor, sal, movimento, burbulhar, mistura de fases, mudanças de estado, vapor, o primeiro momento é um parto lento, curvar, mergulhar como o primeiro choro do primeiro minuto. Dobramo-nos, cedemos, misturamo-nos. Alguns, pobres, mal paridos, já entram quebrados.
Começa o rodopio, o carrocel, encontramo-nos, afastamo-nos, cruzamo-nos, reencontramo-nos, passamos ora por cima ora por baixo. Alguns seguem a vida juntos, outros nunca se vêem. Tocam-se uma vez e seguem rumos diferentes, em paralelo ou cruzados, voltam mais à frente ou atrás. O rodopio.
Dizem que esta vida são sete minutos. Não sei. O tamanho da panela, os litros de água, a intensidade do fogo, o testo, as gramas de sal, o caldo termodinâmico decidido pelo mestre faz a sorte de cada criação: crua, passada, al dente, insossa, apetitosa, no ponto, precoce, desperdiçada.
No fim, escorridos e depositados na taça, regados com molho de tomate, carne ou ovo, manjericão, alho, azeite, polvilhados de parmesão ralado como se fosse cal viva numa vala comum, servidos, damos a vez.