Era a casa da mãe, a casa da família, mas pouco sentia como a sua casa. Do que se recordava bem da sua infância era aquele ano inteiro que viveu na “cottage”, o velho casal isolado nas colinas húmidas e ventosas dos “moors”, a poucas milhas de distância para nordeste, a modesta e centenária casaContinue reading “Josefina Madeira . 26”
Author Archives: Rui Rodrigues
A Guerra do Peloponeso
A Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta, no século V a.C., foi a primeira guerra entre regimes políticos devidamente registada e documentada, confrontando a oligarquia espartana e a democracia ateniense. A guerra, violenta e atravessando toda a civilização grega, da Sicília à Ásia Menor, foi travada em nome da liberdade, reclamada igualmente porContinue reading “A Guerra do Peloponeso”
RJ, Centro
Num fim de tarde de emoções fortes, perdi-me sem desorientar no centro do Rio de Janeiro numa imersão no caos e opressão de história esquecida, do luxo e sofisticação incrustados na miséria desesperada dos sem abrigo, na herança imperial portuguesa e brasileira apagada na discutível modernidade de edifícios de vidro a sombrear palacetes e igrejasContinue reading “RJ, Centro”
Eles
Reconfortados no sol quente de fim de tarde de primavera ainda fresca, partilhavam as dúvidas, remorsos e lamentos do acumular de erros e hesitações da vida madura, procurando mutuamente o apoio improvável no aproximar dos espíritos, sempre arriscado pelo despoletar do desejo, ainda que travado e temperado pela memória das precipitações do passado que tantoContinue reading “Eles”
Josefina Madeira . 25
A última curva abria a paisagem sobre a vila de pequenas casas, de chaminés negras de fuligem da queima da hulha, emparedadas a tijolo vermelho e geminadas em ruas de habitação de mineiros, operários e ferroviários, entrecortada pelo brilho dos carris reluzentes na linha do comboio que saía do túnel escuro até se perder noContinue reading “Josefina Madeira . 25”
Deixa lá!
12.“…Que há de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância,Continue reading “Deixa lá!”
Famintos
Thomas Mann, in Os Famintos – Estudo, Contos. “Este anseio, ele bem o conhecia! «Nós, os solitários», assim escrevera um dia, algures, em hora de confissão silenciosa, «nós, sonhadores isolados, nós deserdados da vida, que passamos os nossos dias introspetivos num à parte, num de fora artificial e gélido… nós, que espalhamos à nossa voltaContinue reading “Famintos”
Rio de Janeiro
Ao amanhecer do dia 1 de janeiro de 1502, os três navios da pequena frota capitaneada por Gaspar de Lemos entravam na embocadura de um enorme rio de águas salgadas.A euforia instalava-se entre a cansada mas esperançosa tripulação. Tinham largado a barra do Tejo, em março, com a missão de aportar as Terras de VeraContinue reading “Rio de Janeiro”
Conto de Natal
Escreviam horas por dia, ele à janela, ela junto à lareira, num silêncio sereno de rotinas simples de quem se aceita e compreende, como se fossem de um para o outro desde o início, de refeições simples e prontas servidas da dispensa e do frigorífico, abastecidos em tempo quando decidiram recolher-se na montanha nevada, noContinue reading “Conto de Natal”
Terapia
Seis meses de viagem à volta do mundo, de cores, ruídos, desilusões e deslumbramentos, longas horas de ligações, caminhadas, refeições, esperas e corridas, e o descanso entrelaçado, pele a pele, ao fim do dia, sem vergonha de mostrar como se é, nem tenção de exibir o que nunca se será, num suar relaxado de medos,Continue reading “Terapia”