Não tardou a adormecer, mas despertou pouco depois das três da manhã, entre dores musculares e suores frios, na tensão recorrente de terror irracional da noite, que o assolava desde que começou a duvidar das certezas inocentes da juventude, da invencibilidade, imortalidade e força infinita para vencer tudo e todos, e tomou consciência da inérciaContinue reading “Josefina Madeira . 28”
Author Archives: Rui Rodrigues
Ainda a Honra e a Vergonha
“A mulher mal-educada aproximou-se a passos cautelosos de Hans Castorp e, sem dizer palavra, estendeu-lhe a mão para beijar — não as costas, mas sim a palma. E Hans Castorp beijou o interior daquela mão; beijou aquela mão pouco cuidada, um tanto larga, de dedos curtos, com a pele áspera nas bordas das unhas.Novamente oContinue reading “Ainda a Honra e a Vergonha”
A honra e a vergonha, e o sentido da vida
“Ainda se lembrava muito bem daquela situação, decerto um pouco ignominiosa, mas também cómica e agradavelmente desembaraçada, que desfrutara durante o último trimestre, quando deixara de se esforçar e pudera “rir-se de tudo”. Não é fácil precisar os seus pensamentos, visto serem obscuros e confusos, mas parecia-lhe, em suma, que a honra oferecia vantagens consideráveis,Continue reading “A honra e a vergonha, e o sentido da vida”
Na hora do lobo
Calo os medos da madrugada no delírio do teu abraço, no entrelaço das tuas pernas, na pressão do teu peito nu, na humidade dos teus lábios a sussurar aconchego e proteção do amor livre e desprendido, que guardamos para os nossos melhores.
Chamam-lhes loucos
Chamam-lhes loucos, aos que vivem num mundo sem prémio nem castigo, sem cobro nem retribuição, um mundo de paz só seu.Chamam-lhes loucos, no medo da incompreensão: Quem pode viver sem regras da lei da posse e proveito? Quem ama sem o uso do corpo? Quem atura sem o conforto da matéria? Quem aceita sem aContinue reading “Chamam-lhes loucos”
Josefina Madeira . 27
“ – A fundição molda o mundo das coisas pequenas, como o Criador nos moldou à sua imagem e semelhança. Minério de ferro derretido com carvão, ambos saídos das profundezas do chão pelo esforço da mineração, enche os ocos dos moldes de areia endurecida, formando peças de máquinas poderosas, velozes e voadoras. O futuro saiContinue reading “Josefina Madeira . 27”
Josefina Madeira . 26
Era a casa da mãe, a casa da família, mas pouco sentia como a sua casa. Do que se recordava bem da sua infância era aquele ano inteiro que viveu na “cottage”, o velho casal isolado nas colinas húmidas e ventosas dos “moors”, a poucas milhas de distância para nordeste, a modesta e centenária casaContinue reading “Josefina Madeira . 26”
A Guerra do Peloponeso
A Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta, no século V a.C., foi a primeira guerra entre regimes políticos devidamente registada e documentada, confrontando a oligarquia espartana e a democracia ateniense. A guerra, violenta e atravessando toda a civilização grega, da Sicília à Ásia Menor, foi travada em nome da liberdade, reclamada igualmente porContinue reading “A Guerra do Peloponeso”
RJ, Centro
Num fim de tarde de emoções fortes, perdi-me sem desorientar no centro do Rio de Janeiro numa imersão no caos e opressão de história esquecida, do luxo e sofisticação incrustados na miséria desesperada dos sem abrigo, na herança imperial portuguesa e brasileira apagada na discutível modernidade de edifícios de vidro a sombrear palacetes e igrejasContinue reading “RJ, Centro”
Eles
Reconfortados no sol quente de fim de tarde de primavera ainda fresca, partilhavam as dúvidas, remorsos e lamentos do acumular de erros e hesitações da vida madura, procurando mutuamente o apoio improvável no aproximar dos espíritos, sempre arriscado pelo despoletar do desejo, ainda que travado e temperado pela memória das precipitações do passado que tantoContinue reading “Eles”