Os primeiros hominídeos chegaram à Europa há mais de um milhão de anos, do leste, do Cáucaso e Ásia Menor, de passagem vindos de África, em várias levas até à última, a do homo sapiens há cerca de 50.000 anos.
A Europa ocidental desse tempo, em plena Idade do Gelo, era muito diferente do que é hoje. A calote polar, de gelos permanentes, cobria toda Escandinávia, norte da Alemanha e Grã-Bretanha, o Canal da Mancha atravessava-se a pé, os invernos eram rigorosos a norte dos Alpes e Pirinéus, a Serra da Estrela cobria-se de neves eternas e o vale do Zêzere era um extenso glaciar.
Em busca de caça e fruta selvagem, de paragens mais amenas, pequenos grupos nómadas, de neandertal e sapiens, marcharam para ocidente, chegaram ao fim da terra, assentaram e deixaram vestígios de Altamira ao Lapedo ou Foz Côa.
Não sabemos como se organizavam nem comunicavam, mas imagino que, olhando o céu em noites límpidas de lua nova, a Via Láctea surgiria como um apontar do caminho para lá do sítio onde o sol se põe, alimentando o mito do fim da terra e do recomeço.
No século I AC, os sofisticados romanos chegaram ao noroeste da península ibérica, pelo mesmo ancestral caminho leste-oeste, e encontraram uma população tribal, organizada em castros, guerreira e orgulhosa, com forte sentimento místico e religioso, numa costa pejada de santuários pagãos em quase todos os cabos e promontórios. A mais famosa divindade seria Lugus. Tinha um muito requisitado e visitado altar pagão, diz-se que no mesmo local onde viria a ser construída a catedral de Santiago de Compostela.
No século IV surgiu na Galécia, província do império romano já cristão, coincidente com a actual Galiza e norte de Portugal, com capital em Bracara Augusta, um movimento religioso liderado por Prisciliano de Ávila.

O priscilianismo era uma forma de gnosticismo cristão que enfatizava a importância do conhecimento espiritual e da experiência pessoal acima da estrita adesão à doutrina tradicional da igreja. Prisciliano pregava que o mundo material era mau e que somente se poderia alcançar a salvação por meio de conhecimento e esclarecimento.
Defendendo que a espiritualidade podia ser encontrada em experiências pessoais e na natureza, Prisciliano foi atraído, pela sua curiosidade, ao santuário de Lugus, na cidade de Iria Flávia. Lá, terá realizado uma cerimónia religiosa, bastante assistida, que envolvia uma fogueira. Alguns estudiosos acreditam que pode ter sido um precursor do culto do Botafumeiro, um objeto litúrgico utilizado ainda hoje na catedral de Santiago.
Os ensinamentos de Prisciliano eram controversos e no ano 380 foi excomungado por um sínodo de bispos em Zaragoza. Mas como recusou a decisão e continuou a pregar as suas crenças, a excomunhão deu-lhe ainda mais atenção e notoriedade, tornando-se uma proeminência da cristandade ibérica.
Em 385 foi acusado de feitiçaria e heresia e levado perante o imperador Maximiano, na cidade de Tréveris, actual Trier, Alemanha. Apesar dos protestos do Papa Sirício e de vários clérigos e teólogos, como Martinho de Tours, foi considerado culpado e Maximiano decretou a sua decapitação imediata e de vários dos seus seguidores mais próximos. Posteriormente, seus corpos terão sido levados para Ávila ou outra cidade da Hispânia. Não se sabe.
O priscilianismo continuou a ser um movimento controverso e perseguido durante os séculos seguintes, atraindo seguidores à Galécia, entretanto sueva, visigoda e leonesa, apesar da aura de paganismo e heresia e do esquecimento a que foi votado pela igreja romana.
Por esse tempo corria também a lenda de Santo Iacobus ou São Tiago, o apóstolo. Martirizado na Jerusalém do século I, seu corpo terá sido depositado num barco de pedra, atravessado todo o Mediterrâneo, rumado a norte, no Atlântico, e chegado às costas da Galiza.
Numa noite do século IX, Paio, ou Pelayo, o Eremita, avista uma luz brilhante a pairar no bosque de Libredón, nos arrabaldes da velha povoação romana de Iria Flávia. Alertado, o bispo Teodomiro deslocou-se ao local e descobriu um sepulcro de pedra onde repousavam três corpos, que identificou como sendo de Santiago Maior e de dois dos seus discípulos Teodoro e Atanásio.
Numa época de reconquista cristã e forte fervor religioso, o Rei Afonso II das Astúrias torna-se o primeiro peregrino de Santiago, manda construir a catedral e funda a cidade de Santiago de Compostela, tornando o apóstolo o padroeiro da sua causa e futuro padroeiro de Espanha.
Em 1875, o arcebispo Miguel Payá Rico decide realizar um rigoroso estudo arqueológico, sob a direção dos historiadores López Ferreiro e Labín Cabello, aos restos mortais que, segundo a tradição, estavam sepultados sob o altar-mor. Em 1879 encontraram um ossário e conseguiram reconstruir os esqueletos do que seriam os restos do apóstolo e seus dois discípulos.
Em julho de 2013, um grupo de especialistas da Universidade de Santiago de Compostela voltou a investigar os restos mortais com técnicas de datação por carbono e análises antropológicas. Embora os resultados tenham sido dados como inconclusivos, mostraram compatibilidade com a datação do século I, idades entre 35 e 45 anos de idade, mas pouca probabilidade de serem originários do médio oriente.
Não sabemos quem está lá sepultado, nem todos os caminheiros saberão porque lá vão, mas basta olhar o céu límpido de uma noite de lua nova para nos orientarmos no milenar caminho de despojamento e renovação, que nos leva à contemplação do pôr do sol atlântico de brumas e maresia, que nunca me cansa.