A memória é feita de imagens fixas. Daquele almoço que nos marcou, guardamos um sorriso, um desafio, uma inquirição, a emoção de um olhar marejado. Momentos, instantâneos, paragem na uniformidade do universo. Tempo.
O nosso cérebro enquadra o que lhe interessa, desinteressa-se do redor, cria uma fantasia de atenção, um rectângulo na paisagem, como se mais nada fosse importante. Espaço.
Sempre que revejo as minhas fotografias, volto àquele sítio, àquele dia e hora, sinto o calor, o frio, a alegria ou o medo, revivo o meu. Propriedade.
Sempre que vejo as dos outros, de sítios onde nunca fui, sinto-me à janela de um comboio ou a ver televisão. Informação.
Estranho ver fotografias de outros do meu ambiente quotidiano, familiar. Ver o meu território retratado com outro cuidado, outra perspectiva, outra luz, outra atenção, outro instantâneo. Vejo coisas que não vi, sempre estiveram lá, estão lá. Sinto-me nos olhos do outro, no espírito. Comunhão.