– Não gosto de pessoas quadradas.
– Tipo Spongebob?
– Não brinques. Sabes bem do que estou a falar.
– Referes-te a pessoas rectas, verticais, com princípios bem definidos e vincados?
– Não. Refiro-me a gente monolítica, pouco facetada, com arestas e vértices agressivos.
– Estou a ver que preferes pessoas tipo seixo, volúveis, que nunca sabes se estão de frente ou de costas, escorregadias.
– Já tentaste abraçar uma coluna quadrada? Não consegues. Magoas-te nas esquinas vivas.
– Já caminhaste em cima de pedra polida e rombuda, como as rochas da praia? Escorregas.
– Mas aí escorrego no lodo. Não tem nada a ver.
-Tem, tem. Escorregas na curva do penedo. Se for plano e horizontal, andas de pé. Num plano liso e inclinado, sabes para que lado escorregas. Se for curvo, nunca sabes para que lado vais cair.
– Queres-me convencer que um tipo quadrado é mais estável, previsível e seguro?
– Claro. E muito mais cooperante, encaixa melhor. Guardas muito mais peças de dominó, numa caixa, do que seixos.
– Mas eu prefiro um seixo polido e macio. É único, não há dois iguais, consigo apertá-lo na mão sem me magoar, não me rompe os bolsos se o guardar.
– És um individualista. Vê lá se o teu calhau rombudo te escapa entre os dedos.
– E tu? Gostos de quadrados, numerados, bem arrumadinhos numa caixa.
– Gosto de ordem.
– Somos diferentes.
