Geração

Agarro uma manada de areia, com as duas mãos, e atiro bem alto, por cima de mim. Cada grão, por si, cumpre a sua trajectória parabólica descrita por Galileu. Sobem alto, com a velocidade inicial da juventude, todos iguais, esperançosos, num super slow motion de pequenos choques, ultrapassagens, ocultações.
Uns, com mais quartzo, brilham de nascença. Outros, mais fortes, mais pesados, destacam-se, bem visíveis. A maioria mal se vê, não se destinguem, ocultados, baços e anónimos. Os que sobem mais alto batem recordes. Os frágeis e pequenos mal avançam. E há os que nem sequer partiram, colados na mão suada.
Quando chegam ao topo, a alturas diferentes, em instantes diferentes, a lei vital da gravidade vence o impulso juvenil do lançamento e mergulham numa descida final de novos choques, ultrapassagens e ocultações.
No fim, voltam à terra de onde foram colhidos, em tempos diferentes. Uns pousam suavemente, outros com violência. Todos desaparecem no mesmo chão.

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