Tarsis

Ouvi falar pela primeira vez nos tartessos há uns anos atrás, num programa de televisão algo fantasista e especulador, no canal História, julgo, sobre as hipotéticas localizações da Atlântida.
A parte menos interessante acabou por ser a conclusão especulativa mas demonstraram a importância da desembocadura do Guadalquivir, no comércio marítimo da antiguidade, pela quantidade de âncoras de pedra descobertas no fundo atlântico, nessa zona.
Os tartessos, tartessa ou Tartéssia terá sido a civilização mais rica e sofisticada da península ibérica, até à chegada dos romanos. Floresceu durante cerca de cinco séculos, entre o ano 1000 antes de Cristo, e o ano 500, também antes de Cristo.
Heródoto, historiador grego, contemporâneo do fim da Tartéssia, descreveu-a como uma cidade portuária, na costa atlântica, logo a seguir às colunas de Hércules, outro nome para estreito de Gibraltar. Mais descrições gregas e romanas referem-se aos tartessos mas a sua história e localização são algo contraditórias. O antigo testamento também fala de Tarsis, cidade desconhecida, que alguns pretendem identificar como capital dos tartessos.
O que se sabe é que os tartessos foram uma civilização que se desenvolveu na Península Ibérica entre os séculos IX e V aC, eram ricos por causa dos recursos minerais e da economia comercial. Actualmente, há mais de 20 sítios arqueológicos tartessianos identificados, em Espanha.
As primeiras descobertas foram no vale do rio Guadalquivir, na Andaluzia, mas descobertas mais recentes no vale do Guadiana, Extremadura espanhola, fazem repensar a extensão da sua influência até ao Algarve, para oeste, e até à costa mediterrânica, para leste.
Os três sítios arqueológicos mais recentes e interessantes são Cancho Roano, Casas de Turuñuelo e La Mata, todos no vale do Guadiana. Além das ruínas in situ, o espólio está a ser recolhido, estudado e parte já está exposta no Museu Arqueológico de Badajoz.
A descoberta mais interessante é a da sua escrita, algo inédito na península. É única, ainda está por decifrar, mas alguns elementos têm semelhanças com alfabeto fenício, o que dá algumas pistas sobre a origem dos tartessos. Julga-se que seriam uma mistura de habitantes locais, colonizadores gregos e fenícios, que enriqueceram com a mineração.
Mas no século V aC, Tartesso parece desaparecer abruptamente da História. Quando os romanos chegaram à Andaluzia, no século II aC, já só encontraram pouco mais do que vestígios. Mas o que é que aconteceu para terem desaparecido quase sem rasto?
Há três teorias que valem por si só ou em conjunto.
Uma é que terá havido uma crise na mineração, provocando o descalabro económico. Outra é que teria sido destruída por Cartago, depois da batalha de Alália (540-535 aC), para vingar a aliança com os rivais gregos.
Qualquer uma destas explicações é válida, pode e deve ter acontecido, mas são pouco plausíveis, em exclusividade, pelo nível de destruição sistemática que seria necessário para apagar toda uma civilização. Aqui surge a terceira possível explicação: a natureza.
Há indícios bastante fortes de que no século VI aC terá havido um violento terramoto e tsunami, idêntico ao que destrui Lisboa, o Algarve e a costa marroquina, em 1755, com origem na mesma falha tectónica. Um porto e cidade, na foz do Guadalquivir, estaria exposto frontalmente à violência destrutiva das águas. Paralelamente, e posteriormente, houve um recuo acentuado do mar por forte deposição de sedimentos do rio. Na antiguidade, o triângulo entre Huelva, Sevilha e Cádis seria um enorme golfo navegável, embora de águas pouco profundas, que, com o recuo do mar e aluvião, deu origem ao actual parque natural de Doñana.
Esta última teoria cria uma enorme expectativa para as gerações vindouras de arqueólogos. Será que Tartesso, Tarsis ou a Atlântida, está soterrada sob a areias de Doñana? A escavação é ecologicamente impensável mas futuras técnicas não intrusivas irão, quem sabe, dar a conhecer uma nova Tróia e abrir todo um novo capítulo da história da antiguidade.

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