O meu rebanho

Vejo a vinha como um rebanho de trepadeiras domesticadas, guardado por arames e postes, em vez de cães.
Conheço-as todas, já as olhei uma a uma, embora só me recorde das doentes ou das mais viçosas, o que se é normal em famílias numerosas. São mais de vinte mil.
Hibernam no fim do outono, deixam-se podar no inverno. Com a primavera começam a despontar as primeiras folhas.


Maio e junho é o tempo mais bonito das videiras. Crescem de dia para dia, engordam, ganham peso, as daninhas disputam-lhes o alimento, sujeitam-se aos infestantes. Precisam de ser aparadas, penteadas, lavadas e desinfectadas, quase todas as semanas. Os cachos mostram-se. Mas tudo muito frágil ainda. Vento, chuva forte ou granizo podem matar toda uma criação, um grande prejuízo para quem as vê como uma fábrica a céu aberto, uma tristeza para quem as toca e acaricia todos os dias.


Se crescerem sem sobressalto, chegam a julho já formadas, prontas para alimentar os cachos, quais mulheres grávidas em fim de tempo. A única atenção, agora, é o escaldão do sol, em dias muito quentes, a seguir ao meio dia. Pouco há a fazer, além de prevenir com o pentear das folhas, para dar sombra aos cachos. E ter o cuidado de lavar-lhes os pés, nos verões muito secos. Gostam mesmo.
Às vezes parece que falam.

Não sei como é o processo de desenvolvimento, o gene, o marcador genético, que faz a videira agarrar-se à vida e defender-se dos elementos. Nesta altura do ano, os ramos já chegaram aos arames de cima e, de um dia para o outro, amarram-se para não tombarem.
Não fui eu que dei a ordem nem lhes ensinei.


Na foto, vemos o orgulho desta, com os braços no ar, por ter chegado ao nível das grandes.

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