
Só conhecemos verdadeiramente os outros quando lhes damos poder para nos amar ou odiar, favorecer ou prejudicar, proteger ou beneficiar, livremente, sem constrangimentos.
Nunca conhecemos os que dependem das nossas ordens, dinheiro ou favores. Vão-nos adorar ou hostilizar, por interesse ou receio, por quem somos, nunca pelo que somos, numa dependência social, hierárquica, económica, tradicional ou emocional, e mostrar-se nas necessidades de influência, imagem, trabalho, dinheiro, proteção, sexo, amizade e amor.
Cinicamente, damos por adquirido que aquilo que nos dão é moeda de troca de outra qualquer vantagem que, sendo benevolente, no mínimo será uma troca justa e recíproca, como o amor correspondido ou remuneração por trabalho competente. Foi a forma que arranjamos para nos organizarmos.
Mas um dia as posições invertem-se. A jugular do déspota fica exposta ao servo, a maioria pode depor o chefe, o trabalhador pode emigrar para melhor, o cônjuge dependente pode bater com a porta. Nesse dia faz-se o juízo de ambos, do seu passado, do presente e do futuro.
Uma das mensagens mais desconcertantes da história da humanidade é sobre isto mesmo: Cristo morreu porque dava tudo e não pedia nada em troca. As autoridades da época não compreenderam o motivo imediato, mas perceberam o alcance longínquo da ideia: todos os alicerces da estrutura de governo e economia ficam abalados quando desaparece a relação causa efeito do poder.