IA

A humanidade está com medo da inteligência artificial, mais do que da peste, da fome, da guerra e da morte, os quatro cavaleiros do apocalipse.

A peste já não assusta ninguém.
Passámos pela crise do covid, com alguns momentos tensos, é certo, mas a consequências mais temidas, ainda por determinar e em discussão, são económicas, de saúde mental e atraso na educação dos jovens.
A ciência e a indústria farmacêutica tiveram capacidade de criar e produzir vacinas em tempo útil, a custos aceitáveis para a sociedade, contribuindo para a confiança e sentimento de domínio sobre a doença.

A fome deixou de ser um problema. Aprendemos a produzir cada vez mais, há excedente alimentares por quase todo o mundo, mesmo com população crescente. A preocupação deixou de estar no risco de fome e passou para os excessos alimentares, hábitos não saudáveis e a sustentabilidade ecológica da produção.
Mais uma vez, a ciência e a indústria resolveram o problema, contribuindo para a  confiança na nossa capacidade de alimentar toda a gente.

Também a guerra passou para segundo plano, como consequência da aplicação do direito internacional e pela contenção imposta pela ameaça nuclear global.
Hoje em dia, qualquer país sente-se protegido e confiante no direito internacional. Os mais pequenos e recônditos de África, Ásia e Pacífico, reconhecidos e com assento na ONU, sabem que, se não provocarem nem ameaçarem ninguém, têm as suas fronteiras relativamente garantidas da invasão de algum vizinho agressivo. Numa economia global, nenhum país arrisca o isolamento e sanções económicas.
A invasão da Ucrânia é uma estranha excepção neste início de século XXI. A Rússia julgou ter poder suficiente para moldar a ordem internacional e que o estatuto da Ucrânia era suficientemente indefinido para não provocar uma reação internacional. A Ucrânia seria uma quase colónia russa, sem direitos nem autodeterminação de facto, sem acesso à UE nem à NATO, sem fronteiras definidas, que teria de se subjugar.
A Rússia não se atreve a atacar nenhum país da NATO, nem os ocidentais permitem que a Ucrânia, numa reviravolta da guerra, invada território russo.
Fica uma guerra de baixa intensidade, longa e circunscrita à zona. No ocidente a vida corre. Há preocupação mas não há medo de alastramento da guerra.

Finalmente a morte, que também já não assusta ninguém.
A mortalidade infantil global está nos níveis mais baixos de sempre e já se discute a valia e necessidade da vacinação.
Entre os jovens as principais causas de morte são os acidentes e suicídio. Problemas difíceis mas que a sociedade entende estar ao seu alcance resolver com ciência e política.
O desenvolvimento dos cuidados de saúde atirou a esperança de vida para lá dos 80 anos. Quem chega à meia idade, normalmente morre de velho.
Na terceira idade morre-se de doenças degenerativas, como as cardíacas ou oncológicas. São mortes lentas e assistidas.
Para agravar a banalidade da morte, institui-se a eutanásia. A morte deixa de ser uma desgraça incontrolável e passa a ser uma opção.

A humanidade está confiante que domina os quatro cavaleiros, profetizados pelo apóstolo João, do livro do Apocalipse. Mas, perdendo-se estes medos, outros surgem, de novas realidades.

Duvidando na nossa inteligência natural, sujeitamo-nos, entusiasmados, a algoritmos de opinião e motores de busca, conversamos com robots, atendemos mais a sondagens do que à intuição dos políticos, vamos de modas criadas por máquinas, a criação literária e musical é metrificada. Sujeitamo-nos a uma nova inteligência, artificial, alienígena, que se dissemina.

Embrutecidos, deixamo-nos ir mas começamos a ter medo. O medo ancestral do desconhecido, do sobrenatural, do fim do mundo.

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