Sorriso sincero

Eram amigos já há algum tempo. Partilhavam outros amigos, espaços, interesses e vivências, por vezes alguns trabalhos e tarefas. Tudo normal, nesta vida normal de gente normal.

Um dia ela fez-lhe uma pergunta surpreendente:

“- Porque és bom para mim?”

Ele ficou embaraçado com frontalidade e ingenuidade que o deixou sem resposta. Porquê? O quê?

Podia ter sido sincero, que era por interesse, dinheiro e talento, que estava apaixonado, que queria sexo, ela era uma mulher bonita, mas nada disso era verdade, por si só.

Como poderia explicar que ela valia pela alegria, a energia, as histórias, a imaginação. O espírito contagiante que enchia salas era suficiente para a querer, não para ter a seu lado, mas para ter a sorte de lhe ver o sorriso sincero que guardamos para aqueles de quem mais gostamos.

Não sei que resposta lhe deu, nem sei que resposta ela queria ouvir, mas sei que envelheceram perto um do outro. Mas não tão perto como todos os outros julgavam.

Acho que ela nunca o percebeu e ele nunca foi realmente sincero.

Ela talvez quisesse mais, mas não tinha a certeza se era ele. Outros já lhe tinham marcado o passado e tanto desiludido. A alegria, às vezes, era só aparente, de cicatrizes nervosas.

Ele não a queria perder e tudo fez para tudo lhe dar, sem exagerar e nunca a maçar nem desiludir. Por insegurança, talvez.

Arranjaram um equilíbrio que durou toda a vida. Não sei se foram felizes mas olharam-se sempre com o sorriso sincero que guardamos para aqueles de quem mais gostamos.

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