A meia idade é isso mesmo, estar a meio do que já começou há muito. Se estamos a meio, do que já começou há meia vida, é porque já está tudo iniciado e só falta escrever a segunda metade do nosso livro. Nas segundas metades dos livros, conhecemos bem as personagens, sentimos aquele conforto de já os tratarmos por tu, temos os nossos preferidos, queremos castigar os vilões e sofremos ao adivinhar o fim dramático que o autor parece querer arranjar para se distinguir da novela de cordel.
A primeira parte do livro está cheia de primeiras coisas. Primeira casa, primeira escola, primeiros amigos, primeiros amores, primeiras experiências, primeiros desgostos, primeiros entusiasmos, primeiras desilusões, primeiro emprego, primeiros pecados, primeiro casamento, primeiro filho, primeiro tudo, ou quase tudo, porque alguns nunca chegam a ter tudo. Depois vem a segunda parte, que é como a dos livros, que eu já descrevi acima e não vos quero maçar com a repetição da ideia.
Parece monótono. Monotonia é confortável para os que gostam de ir sempre aos mesmos cafés, à mesma hora, as mesmas conversas, os mesmos trajectos, o mesmo dia de ir ao supermercado ou ao cinema, reclamam do emprego de sempre que nunca tiveram coragem de largar, almoço de domingo, sofrem quando os filhos saem de casa mas recuperam a passear os netos. Somos assim. Quase todos.
Eu gosto de ouvir pessoas. Ouvir ideias.
Raramente concordo. Enjoo com o cheiro a pintado de fresco dos velhos jargões; já comprei banha da cobra há muitos anos. Uns com o entusiasmo julgado inovador da juventude, outros com frustração vestida de preconceito conservador. Dão-me sono que não consigo esconder quando tento olhar distraidamente para o relógio. São personagens de outros livros menos interessantes do que o meu.
Mas não é sempre assim. Alguns passam o teste do terceiro encontro.
A primeira conversa é a mais divertida. Quer dizer, nem todas. Alguns nem falam e outros mais valia terem ficado calados. Voltando ao princípio, a primeira conversa é a mais divertida. Quando querem impressionar – e é bom que queiram, senão escusavam de ter saído de casa, mostram o que sabem, o talento, o espírito, os ideais. É óptimo para criar ambiente em festinhas de aniversário.
A segunda conversa é o primeiro exame. Não tem mal se repetirem o número. Haverá outros ouvintes em primeira mão, a quem se dirige a actuação, mas anoto. Ou então surpreendem com novo e complementar discurso. Também anoto.
Do terceiro encontro sai o veredicto. Só aprovo aqueles que fazem parar o tempo; fica tudo por dizer e por ouvir, ao fim de horas que não dei por passar. Dos outros já me esqueci.
Uma personagem de segunda parte já traz um passado, não é um recém-nascido. E não podemos maçar o leitor, eu, com a descrição do passado da personagem de segunda parte. Passado é passado.
Descobrir uma pessoa interessante é como abrir a porta de um quarto e acender a luz. Num instante vês mobília, quadros, livros, roupa. Pela arrumação e decoração tiras o carácter. Sentes o cheiro. O candeeiro é importantíssimo.
Entras, vês, testas as dureza do colchão e a macieza do veludo da cadeira. Abre-te o armário, a estante, mostra-te o que está a ler. Delicia-te.
Aponta para o fundo e diz: ali ao fundo está a minha arca. Fechada. É a caixa negra do meu passado. Não tens nada com isso. Sou a soma de três partes: a que saiu da minha mãe, a que vês no meu quarto e a que fechei na caixa negra do meu passado que nunca te mostrarei.
Foi assim que te juntei para a segunda parte do livro da minha vida.
Gostei! Aonde poos seguir- te se assim o entenderes.😊
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