Quarenta e quatro

Uma ou duas vezes por ano, fazia a visita de cortesia que se deve ao nosso melhor cliente. Era sempre um almoço num local bom e discreto, daqueles que só os homens mais ricos das terras pequenas conhecem.

O Sr. Armando era um verdadeiro caso de sucesso,  case study, como dizem os estrangeirados. Formação de escola comercial em horário noturno, no tempo em que se começava a trabalhar com a quarta classe, casou muito novo. Vida modesta, ainda com filhos pequenos, chega antes dos trinta anos à chefia do escritório da fábrica onde trabalhava, desde sempre, nos frenéticos anos oitenta em que tudo acontecia. Mercados abriram, CEE, novos bancos privados sedentos de crescimento, inundação de fundos europeus, dinheiro a fluir, tudo se exportava e tudo se importava, íamos ser ricos, íamos ser definitivamente europeus de primeira.
Os donos da empresa do Sr. Armando já tinham bastante idade. A empresa era sólida mas com instalações velhas e equipamento obsoleto. Não havia sucessão familiar. Um dos sócios não tinha filhos. Apenas um sobrinho pouco capaz e menos ambicioso, que por lá arrastava orgulhosamente papéis, a coberto do poder avuncular. O outro sócio tinha uma filha, professora primária, julgo, solteira e com consumições de sobra, segundo dizia, no seu dia a dia, para se estar a meter em decisões de barco tão grande.
O empurrão foi dado por um novo gerente do balcão do banco com quem mais lidava – os patrões deixavam esse trabalho de despacho financeiro para o braço direito, Armando. Depois de ganhar alguma confiança, falou do impasse em que se encontravam. Concorrência espanhola, necessidade de inovação e investimento, mercados a abrir, mas os sócios sem vontade nem incentivo para progredir.
– “Porque é que você não compra isto aos seus patrões? Tem o nosso apoio”. Disparou o jovem bancário. Eram da mesma idade.
Nessa noite nem dormiu. Não era assunto que nunca tivesse sonhado, mas cresceu num mundo em que nada se faz sem o empurrão da família. E dessa só poderia esperar a marrada do Joel, o bode cobridor do rebanho do modesto e trabalhador senhor seu pai.
O jovem Armando percebeu que estava perante a oportunidade da vida dele. Conhecia o negócio como ninguém, onde comprar, onde vender, quanto custa, até como fazer. Anos de trabalho, doze horas por dia, pelo menos. Não tinha jeito para vendas, mas tinha uma relação muito próxima com Paulo, das vendas. Mais jovem do que ele, cheio de vontade, dinâmico, falava inglês, já com resultados, de fácil entrada em todos os clientes.
No dia seguinte, saiu mais cedo do trabalho, alegando uma diligência de cobrança, e, ao fim da tarde, foi falar com o Dr. Ribeiro, advogado da terra, ainda aparentado da mulher, para perceber como havia de montar o negócio. Passou a noite em claro, a fazer as suas contas, no dia seguinte acertou com o banco, e pediu para falar com os patrões.
Foi um choque. Armando propôs comprar o negócio pelo valor do imóvel, libertando de imediato os sócios de qualquer responsabilidade.
” – Nem pensar, é de borla, isto é um abuso”.
” – Tudo bem”, responde Armando, “Então saio hoje mesmo, porque tenho proposta de emprego e tenho de olhar pela família”.
Não saiu, mas o bluff funcionou e no final da semana estava tudo tratado.

Voltemos ao dia da visita, para não vos maçar com mais detalhes de negócios passados.
O Sr. Armando falava de pé com um indivíduo grisalho, entroncado, de blazer, barba rala, cinquenta anos talvez. Nunca o tinha visto. Acenou-me como quem manda aguardar.
Aguardei entretido, a falar com o Dr. Carlos, da contabilidade, sportinguista ferrenho, que ainda hoje não sabe que sei tanto de futebol como de séries espanholas da Netflix.

” – Rui, importa-se que o Vítor almoce connosco?”, pergunta-me o Sr. Armando, depois de atravessar toda a sala, em passo largo e decidido, atrelando com dificuldade o que fiquei a saber chamar-se Vítor.
Como é que eu havia de discordar. A visita era de cortesia e nunca tinha hipótese de pagar na terra dele, quanto mais escolher mesa ou convidados.
“- Siga-nos! Vou no carro dele e depois venho consigo”.
Meteram-se por uns quelhos para mais um dos tais bons sítios para registar no gps.
O almoço correu bem. Vítor era fornecedor de embalagens, de madeira, cartão e metálicas. Conversa fácil, bom trato, pouca confiança comigo. Estive calado quase todo o tempo.
Conforme combinado, Vítor saiu mais cedo, rapidamente, para um qualquer compromisso.

O Sr. Armando baixou a voz e começou a falar em tom grave.
“- O Vítor é bom rapaz, conheço-o há muitos anos mas já vai no quarto casamento”.
Eu sorri nervosamente. E daí? Pensei.
“- Não consegue assentar a vida dele. Tem muitas qualidades, é trabalhador, sério, esperto, óptimo profissional. Trabalha por conta própria, sabe mesmo do que faz e resolve todos os meus problemas, por preço em boa conta, mas está sempre atrapalhado. Estou sempre a ajudá-lo, dou-lhe preferência, sempre, mas já desisti de saber o nome do fornecedor, sempre a mudar.
Sabe porquê, não é? Já vai no quarto casamento”.
Anuí. Como podia discordar? Casado há meia dúzia de anos, não estava em posição nem com estatuto para debater o tema.
“- Pois é, Sr. Armando. Isso dá muita instabilidade”.
“- Sabe, Rui, estou casado há quarenta e quatro anos. A minha mulher é o meu esteio. Só ao fim de muitos anos, estando bem, ganhamos intimidade e comunhão. Até lá, é um misto de festa e excitação, quando não dá logo para o torto. Ganha-se confiança. Nem sempre se é feliz. É preciso gerir silêncios e temperar os excessos. Muita paciência. Mas só assim, fiz o que fiz, construí o que construí, e volto para casa como se fosse a primeira vez. A minha casa de sempre, o meu lar. Todo o resto é descartável, faz-se de novo”.

Não sei se percebi bem o que me disse, mas já passaram muitos anos e nunca mais esqueci.

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