Felicidade

Regularmente surgem rankings dos países mais felizes do mundo, mas raramente se explica e discute como se afere a felicidade colectiva. Tanto assim que se julga que os finlandeses, no seu país triste e soturno, só são felizes porque são ricos, e que os parvos dos portugueses não são mais felizes porque não apreciam devidamente o maravilhoso país de sol, praia e paisagem que têm.

Esta interpretação popular é errada e induz uma arbitrariedade que sabota a real percepção da felicidade colectiva. Os finlandeses não são ricos por sorte, por herança ou por acção divina. São-no por implementação de medidas concretas, sistemáticas, palpáveis e controláveis. Por outro lado, os portugueses lutam diariamente com agressões contra si, contra a sociedade e contra o ambiente e paisagem, mesmo que indirectas e negligentes.
Na verdade, um dos sentimentos mais recompensadores é o de concretização de um objectivo, alcançado após planeamento e trabalho, enquanto nascer num país ensolarado não requer particular esforço.

Os factores chave que afetam o bem estar e qualidade de vida das pessoas estão bem identificados, em muitos estudos e publicações internacionais, e sabemos que é o cumprimento e satisfação destes objectivos e necessidades que influenciam significativamente a felicidade colectiva.
Não pretendendo ensinar a missa ao vigário, se eu fosse político, com responsabilidades nacionais ou locais, e não meramente político no sentido ateniense de cidadão, meditaria nas minhas acções e atentaria cuidadosamente em cada um dos seguintes pontos:

1) Condições sócio-económicas. A prosperidade económica geral de um país, incluindo o nível de rendimento, emprego, desigualdades e acesso a serviços básicos, tem um impacto significativo na felicidade das pessoas. Mais do que discutirmos anualmente a distribuição, por Orçamento Geral do Estado, de riqueza, que não sabemos se temos, deveríamos marcar já um objectivo de riqueza para daqui a vinte anos – por exemplo, o PIB per capita actual da Finlândia, e determinar o crescimento anual necessário para o atingir. A discussão das medidas a tomar, com vista a esse enriquecimento, seria muito mais proveitosa do que a disputa anual de migalhas entre ministérios e grupos de pressão.

2) Saúde e bem estar: Acesso a serviços de saúde adequados, incluindo cuidados médicos, prevenção de doenças e qualidade do sistema de saúde, pode afetar o bem-estar físico e emocional de uma população, contribuindo para sua felicidade. O SNS deve ter um sistema que permita monitorizar devidamente a qualidade de serviço prestado, da neonatologia aos cuidados paliativos, para que quando surge uma notícia de atraso ou deficiência num serviço, já esteja devidamente identificado e com implementação de medidas previamente pensadas. Isto é perfeitamente exequível, com um sistema de gestão da qualidade, mas duvido que o seja se for gerido centralmente, no actual esquema macrocéfalo, e sem contratação de privados.

3) Relacionamentos e apoio social: A qualidade dos relacionamentos interpessoais, como família, amigos e comunidade, desempenha um papel crucial na felicidade das pessoas. O apoio social, o sentimento de pertença e a qualidade dos vínculos sociais podem influenciar diretamente o bem-estar emocional. Esta deverá ser um dos factores em que os portugueses mais se destacam. Curiosamente é uma área em que o poder político tem poucas, ou nenhumas, responsabilidades.

4) Educação e desenvolvimento pessoal: Acesso a uma educação de qualidade e oportunidades de desenvolvimento pessoal influencia directamente a felicidade de uma população, não apenas pelo acumular de conhecimento e formação, mas por aumentar a satisfação geral e o sentimento de propósito. Este é o tão propagado elevador social que parece que continua emperrado, por falta de reconhecimento da classe docente e pela ausência de soluções de ensino profissional.

5) Ambiente social e cultural: O clima social, a estabilidade política, a liberdade pessoal, a segurança e o respeito aos direitos humanos são factores que podem influenciar a felicidade de uma população. Um ambiente seguro, inclusivo e respeitoso tende a promover o bem-estar e a felicidade das pessoas.
O clima de crispação promovido por discussões parlamentares estéreis, a dúvida permanente acerca da competência e honestidade de um governante, a sensação que os atrasos na justiça são propositados para beneficiar alguns, a insegurança percepcionada da pequena criminalidade nas cidades, a falta de decisão sobre a localização de um mero aeroporto, os acidentes rodoviários e o descontrolo na gestão do trânsito, o caos nos transportes públicos, e tantas outras pequenas irritações, contribuem para a tensão geral que se vive. Precisamos de paz, serenidade e silêncio.

Sentir-se satisfeito com a vida, ter objetivos significativos e um senso de propósito pessoal estão associados à felicidade. O sentimento de realização, a autodeterminação e a capacidade de encontrar significado nas atividades diárias podem contribuir para a felicidade individual e coletiva.
Quem nos governa tem obrigação de marcar metas e objetivos concretos, em vez de ideias vagas. Tem de governar em vez de ocupar lugar.

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