Todas as manhãs, D. Jaime Cabeça de Vento saía montado no seu cavalo, para a ronda diária por seus domínios.
Agora demorava mais porque havia anos que herdara, de um tio que não conhecera, um casal afastado, empoleirado no alto de um monte com boas vistas. Continuava indeciso se lhe chamaria Monte da Boavista ou Casal do Fim do Mundo. Para já, não o preocupava, os caseiros eram modestos e trabalhadores, mas um dia teria de resolver que lhe fazer. Era distante e não era contíguo ao seu domínio senhorial. Pelo meio havia uma propriedade, uma charneca sem cultivo, dominado por um Paço construído em granito azul, guardado por um escudeiro com cara de mau, Sancho de seu nome.
Sancho era de poucas falas, nunca lhe ouvira uma palavra sequer, quando se cruzavam, ele mal erguia os olhos. Caçava todas as madrugadas, vários coelhos, lebres e galinholas que, ao raiar do dia, já levava para lá da pesada porta.
De quem seria este Paço tão bem guardado?
Diziam que era de uma princesa leonesa, outros diziam que era moura, que não saía por ser pouco de ir à igreja. Uns diziam chamar-se Urraca, outros Joana. Mesmo nada sabendo, D. Jaime sentia-se observado quando passava para o Fim do Mundo.
Alguém o olhava por entre as ameias da torre mais alta. D. Jaime habituou-se a cumprimentar essa figura que nunca soube se não viveria apenas na sua imaginação.
Um dia, os caseiros do Fim do Mundo deixaram o monte, foram para terras mais férteis, mas D. Jaime Cabeça de Vento nunca o vendeu, cedeu ou entregou ao rei. Ficou devoluto mas serviu sempre de pretexto para a volta matinal até ao Monte da Boavista, para a sua conversa imaginária com a amada Princesa do Castelo Azul.