Viver

Viver é romper. O próprio acto de nascer é um rompimento. Morrer é o outro.
Passamos a vida a negá-lo numa busca incessante de conforto e normalidade, por via do direito e da economia, que mais não é do que o direito valorizado e quantificado, de uma vida em comunidade respeitadora, monótona, segura e previsível. Almejamos viver no rebanho, cercados, alimentados, orientados por uma qualquer entidade terrena ou etérea, real ou imaginária, ou uma simples ideia, como a Lei, quando a nossa verdadeira natureza é exploratória ou, diria mesmo, explosiva. Cada indivíduo é um universo de consciência e vontade, só limitado pela sua fraqueza natural e princípios éticos e morais que, esses, não me atrevo a questionar. Se calhar caímos no direito natural, o direito outra vez, mas essa discussão não é para mim.
Quando confrontados com os verdadeiros actos da vida, com calma e serenidade, tempo para pensar e digerir, sentimos o efeito regenerador, a renovação, a reforma que instintivamente negamos por preguiça ou comodidade.
E o que é nascer? Nascer não é só sair das entranhas da mãe. Isso é um acto violento e doloroso, marcante, é certo, mas também efémero. Nascer também é todo o processo de anos de desenvolvimento e aprendizagem até à formação completa da consciência adulta. Só um indivíduo adulto que acompanhe e oriente este processo compreende a empresa de criação de uma pessoa, da criança até à entidade autónoma, capaz de se cuidar e cuidar de outros, num ciclo que se renova.
Morrer também não é fechar olhos num último suspiro. Esse é o outro acto violento e efémero, chocante mas que, quem fica, supera num misto de negação e aceitação, consoante a sua personalidade, relacionamento e circunstância do momento.
Morrer é enfrentar a degradação física, o caminho sem retorno, a dor e esforço, a partilha, aceitar a humilhação e reconhecer a nossa incapacidade, numa entrega humilde mas digna.

Instintivamente, fugimos destas responsabilidades e, invariavelmente, buscamos apoio na religião, no Estado ou no dinheiro, consoante o credo, convicção ou disponibilidade. No fundo, queríamos viver só naquele pequeno intervalo da vida sem responsabilidades, infantil, em que estamos bem, já não temos de cuidar de uns e ainda não temos de cuidar dos outros.
Lamento, mas isto é muito mais complicado. Mas também muito mais interessante. Viver.

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