“Li três livros desde que cheguei”, escreveu ele na última carta, que datava de 9 de agosto, “e achei que eram todos fantásticos. Dois deles foram-me enviados pela minha tia Mildred, um pequeno de Franz Kafka chamado A Metamorfose e um maior de J.D. Salinger chamado À Espera no Centeio. O outro foi-me dado pelo marido da minha prima Francie, o Gary – Cândido, de Voltaire. O livro de Kafka é de longe o livro mais esquisito e difícil de ler, mas eu adorei-o. Um homem acorda uma manhã e descobre que foi transformado num inseto enorme! Parece ficção científica, ou uma história de terror, mas não é. É sobre a alma do homem. À Espera no Centeio é sobre um miúdo do liceu a vaguear por Nova Iorque. Não acontece muita coisa, mas a maneira como o Holden fala (ele é o herói) é muito realista e verdadeira, e não conseguimos evitar gostar dele e desejar que pudéssemos ser amigos dele. Cândido é um livro antigo do século XVIII, mas é emocionante e engraçado, e eu ri alto em quase todas as páginas. O Gary disse que é uma sátira política. Eu digo que é muito fixe! Tens de o ler e os outros também. Agora que os acabei a todos, o que me impressiona é como os três livros são diferentes. Estão todos escritos à sua própria maneira, e são todos muito bons, o que significa que não há apenas uma maneira de escrever um bom livro. No ano passado, Mr. Dempsey estava sempre a dizer-nos que havia uma maneira certa e uma maneira errada – lembras-te? Talvez na Matemática e nas Ciências haja, mas não com os livros. Fazem-se à nossa própria maneira, e se a nossa maneira for uma boa maneira, podemos escrever um livro bom. O mais interessante é que não consigo decidir de qual gostei mais. Seria de pensar que soubesse, mas não sei. Gostei de todos. O que quer dizer, suponho, que qualquer maneira boa é a maneira certa. Fico feliz quando penso em todos os livros que ainda não li – centenas deles, milhares deles.
Tanta coisa pela frente!”