A vida é um trapézio e cada um nasce com o seu. Mais alto ou mais baixo, com rede ou sem rede, frágil ou robusto.
Quando somos jovens, ensaiamos os nossos números, garbosos, com as lantejoulas a resplandecer os focos da atenção. Os mais destemidos arriscam e quando falham caem na rede tecida desde a nascença. Algumas redes são bem robustas, familiares, mas não são para todos. Há quem não tenha rede de todo e, chegando lá acima, arrisca uma queda fatal à primeira falha.
Os mais fortes sobem mais alto, os outros nem tanto. Alguns, frágeis ou medrosos, nem saem do chão.
A rede, em média, dura tanto como nós, mas é um corpo estranho. A duração é estatística, pode acabar no primeiro dia ou viver eternamente. Como o Euromilhões – é quase impossível sair a mim, mas sai sempre a alguém.
Continuo a fazer os meus números. Já caí na rede várias vezes e tive de voltar a subir a corda a pulso.
Os reflexos já não são os mesmos. Já não coordeno exatamente o fecho das mãos com o impacto na barra, mas, para já, vou sempre emendando. Um dia vou falhar e a rede pode já não estar lá.
Nesse dia, despeço-me esperando ter agradado ao meu querido público.