Andava com sintomas há já uns anos, mas adiava todos os verões o check-up prometido. Não precisava da palavra de um especialista para saber que o tempo só lhe estava a agravar a situação. Nem era só o tempo, mas também o espaço. Tinha dificuldade em encaixar-se. Não encontrava posição para a “coluna reta”. A verticalidade contrastava com as escolioses mundanas e de cada vez que lhe era pedido dobrar a espinha, as dores eram insuportáveis. Para além disso, tinha o coração deslocado: congenitamente veio situado ao pé da boca, o que lhe arrancava suspiros, para além das muitas palavras que não conseguia evitar dizer. Má sorte a sua quando, a acrescer a isto, os pés resolviam não ajudar e se fincavam juntos, obstinados e renitentes. E mais o raio dos pulsos, que se mantinham firmes. Tudo piorou quando uma vez lhe disseram que “não tinha estômago” para grande parte das situações que a vida lhe colocava diante. Como poderia então esmoê-las se não tinha um dos mais importantes órgãos do aparelho responsável pela digestão? Estava confuso e a pensar se necessitaria de medicação. Olhou para as mãos e serviu-se delas metendo-as na massa. Tentaria substituir os remédios pelo trabalho, considerando aqueles sabotadores deste. Acusaram-no, por isto, de ter maus fígados. O seu fado ameaçava-o agora com uma cirrose. A solução? Fazer dos ouvidos, moucos. Tudo aquilo estava a criar-lhe problemas no queixo, que lhe caía a cada diagnóstico. Queria fazer vista grossa de todas as suas mazelas, aceitando uma cegueira que lhe desse algum descanso mental, mas sentiu uma corda no pescoço, um nó na garganta, que só encontrou alívio quando se deixou deformar pela “coletivite”, uma inflamação aguda dos valores da ordem social que mata, mas só lentamente…
