Convívio

Não percebi se foi com amargura ou jactância, mas afirmou, algo seriamente, que perdera o hábito e gosto pelo convívio. As conversas já não lhe interessavam, pareciam repetidas, sem surpresas nem entusiasmos. Programas familiares, piqueniques, lanches, idas à praia, já não lhe despertavam emoção. Do churrasco no jardim, só se lembrava do barulho das crianças. Cafés ou esplanadas, com mais de três à mesa, já lhe pareciam um arraial.
Seria cansaço, desânimo ou desalento, pensei. Preparava-me para ajudar, tentar animar, mas eis que muda o tom da conversa.

“- São coisas simples, sabes. Nós somos complexos, necessitamos de agitar as águas, criar. Queremos fazer coisas, o quotidiano não chega.”
Após alguns segundos, a tentar perceber o que me dizia, a olhar olhos nos olhos, lá retorqui:
“- Mas olha que vais sofrer com isso. Não há assim tanto para fazer e precisas de uma base de normalidade, rotina, para acalmar o espírito. Lugares e pessoas estáveis, previsíveis, fazem-nos bem. Confortam.”
“- Mas eu adormeço neste conforto. Preciso de mudar. Preciso de outro conforto.”
“- Vais mudar quando menos esperas.”

A conversa ficou por aqui.
Não sei como está agora. Usou o plural, não sei se majestático ou inclusivo, como me pareceu. Se calhar só queria mesmo o conforto do meu colo.
Saí a tempo.

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