– Tu sabes tudo?
– Não sei nada. Só julgo saber alguma coisa.
– Como assim? Opinas sobre quase tudo, às vezes com sobranceria.
– O que sei agora é diferente do que eu sabia ontem, e do que vou saber amanhã. Sabedoria é absorver e perceber o que se passa à volta, é descobrir todos os dias coisas novas. É a satisfação de reconhecer que ontem estavamos errados. É fluído e transitório.
– Como assim? Há livros escritos há seculos, por grandes génios, com verdades imutáveis. As leis de Newton, escritas no século XVII, são as mesmas que nos permitem viajar, com precisão, por todo o sistema solar, no século XXI.
– Falas de Newton, falas bem. O que ele viu e percebeu revolucionou todo o nosso conhecimento. A quantificação das massas e energia, os equilíbrios estáticos e dinâmicos, a lei da atração universal, abriu as portas para a revolução industrial e para o espaço.
– Então, o nosso mundo está estruturado num conhecimento com séculos, dele e doutros.
– Mas não é o conhecimento final.
– Claro que não. Todas as semanas, os cientistas fazem descobertas formidáveis a acrescentar a séculos ou milénios de sabedoria.
– Não é desse final que eu estou a falar. Eu acho mesmo que Newton pode e deve estar errado.
– Agora estás a ser ridículo e presunçoso.
– O conhecimento da humanidade é como a caverna de Platão. Começámos lá no fundo, na escuridão completa. Comíamos e éramos comidos, pouco mais do que isso. Nessa altura iniciámos o caminho para a entrada da caverna. Sempre a andar de costas, não me perguntes porquê, mas é assim, tenuamente iluminados pela luz da entrada.
– Se é assim há tanto tempo, já devemos estar ao pé da porta.
– Não. Começámos há centenas de milhares de anos e não sabemos quantos milhares ou milhões nos faltam. Mas eu suspeito que nunca vamos chegar à entrada. A caverna não tem fim.
– Não vamos chegar à realidade do exterior?
– Não. Só vemos as sombras da realidade reflectidas na parede. Com o andamento, as sombras tornam-se mais nítidas, mas são sempre sombras. Muda a parede, muda a luz, muda tudo, mas são sempre sombras de uma realidade que nem imaginamos.
– Mas eu estou a olhar para ti. Tu existes, somos realidade.
– Não. Isto é tudo uma grande ilusão. Depois de Newton, descobrimos, com Einstein, que o espaço é curvo para uma dimensão que não vemos, contrai-se com a velocidade, e a passagem do tempo não é constante para todos. Até agora pensávamos que era a massa que distorcia o espaço-tempo, mas, nos últimos anos, descobrimos distorções sem massa. Ou, pelo menos, massa visível e detetável. Chamam-lhe matéria escura. Não fazemos ideia do que é, e está no meio de nós. Também detetamos uma energia antigravitacional em muito mais quantidade do que a força gravitacional do universo. Chamam-lhe energia escura. Nada disto bate certo.
– Tiras-me o sono.
– Ainda dormes?