“Ela descobrira este impulso contrário em si mesma no casamento da prima Charlotte, aquele trabalho gratuito em 1955 que se tinha tornado uma exuberante orgia de três horas e meia de fotografia frenética, à medida que ela girava pela multidão, liberta das restrições da preparação laboriosa e mergulhada num rodopio de composições velozes, uma fotografia a seguir à outra, instantes efémeros que tinham de ser apanhados precisamente naquele momento ou então nunca, parava-se um segundo e a foto desaparecia, e a ferocidade de concentração exigida naquelas circunstâncias tinha-a lançado para uma espécie de febre emocional, como se cada rosto e corpo na sala estivesse a precipitar-se para ela ao mesmo tempo, como se cada pessoa ali estivesse a respirar dentro dos seus olhos, não mais do outro lado da câmara mas dentro dela, uma parte inseparável de quem ela era.”
Paul Auster, “4321”, cap. 2.3