A tua vida é um contador indiano cheio de gavetas, umas maiores, outras mais pequenas, algumas com chave. Guardas tudo o que passaste e que te lembras. O que não te lembras também está lá, mas no fundo, por baixo do que consegues ver, às vezes maior e mais pesado do que pensas, custa a abrir a gaveta, não sabes porquê, espreitas e só vez ideias levezinhas, mas voltas a esquecer porque já te distraíste com outro pensamento qualquer. Algumas estão fechadas à chave. Sabes bem quais são. São os segredos preciosos e mais dolorosos. Bem fechados.
A mim, só mostras o que queres. Coisas fáceis e agradáveis, normalmente. Outras difíceis, reveladas a custo, mas com sentido. Sabes que sou curioso e gosto de ti, vejo com atenção tudo o que me mostras, às vezes um dos segredos guardados com chave. Também vejo as portas fechadas do que não me mostras. Vemos os dois, não pergunto e aprecias o meu respeito.
Mas o que gosto mesmo é da confiança com que me deixas junto do teu contador. Ausentas-te, vais aos teus afazeres, e fico ali, junto de todas as gavetinhas da tua vida. Não toco nem abro, fico a apreciar o exterior do teu ser, lembrando-me do que és, do que mostras e do que me vais esconder para sempre, a aguardar que me voltes a dar atenção.
Conquistas-me quando me mostras que também estiveste atenta às minhas gavetas, viste o que quiseste ver, e não perguntaste pelo que não quis mostrar. E seguimos de mão dada.