Abrigo

Bondosa, disponível, esforçada, atenta, sempre pronta a ajudar, nunca regateou tempo e trabalho para o bem dos outros. Família, colegas e amigos habituaram-se à segurança do cuidado e palavras amigas, da refeição quente sempre disponível para mais um, do abrigo para qualquer momento. Ninguém discutia a sua disposição porque isso não era assunto: estava lá, como sempre esteve.
Não repararam que sempre que falhava o agradecimento era como se cortassem mais uma fatia fininha da sua pessoa, insignificante mas também definitiva. Sempre que faltava o reconhecimento, desaparecia mais um pouco dela, como quem corta fiambre na máquina elétrica.
Um dia disse basta. Indignaram-se porque descobriram que afinal aquela pessoa bondosa, aquele poço infindável de virtude e beneficência, era tão egoísta e caprichosa como qualquer rafeiro comum e, pior ainda, não tinha tido a sinceridade de se mostrar ao mundo, ocultando-se numa abnegação hipócrita.
Não perceberam nada. Não perceberam que, muito pelo contrário, ela tinha desistido das pessoas porque sentia a culpa da sua própria fraqueza. Não conseguira mudar nada, não conseguira mudar os outros. Mantinham-se todos egoístas e oportunistas, cada um por si e ninguém por todos.
Quando a sua energia se esgotou, ela morreu como sempre viveu: esquecida, sem reconhecimento, sem a vida cheia e activa que os outros tinham, com os intervalos em que recuperavam e retemperavam no abrigo da sua casa.

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