
Já te disse que gostava de viver na lua? Queria viver numa casa com uma varanda enorme, com vista para a cratera de Tycho – depois digo-te quem foi Thyco Brahe. Sabes que tinha de ter marquise, não sabes? Lá não há ar, a varanda não pode ser aberta. Marquise não é bonito, mas é como tem de ser. Seria uma casa subterrânea, para proteger das radiações solares, na encosta da cratera, com uma janela de vidro, enorme, aberta sobre a paisagem. A cratera tem oitenta e seis quilómetros de diâmetro, mal se consegue ver o outro lado.
Da minha varanda veria sempre a tua casa, a Terra fixa no céu, a rodar sobre o seu eixo, e ver os continentes, todos, todos os dias de vinte e quatro horas. No teu inverno é quando é mais bonito. A Antártida fica virada para mim durante seis meses, de setembro a março. O branco do gelo, a brilhar ao sol, quase me ofusca.
Vou guardar um cadeirão para ti, ao lado do meu. Sei que gostas de lareira, mas ainda tenho de pensar onde vou arranjar a lenha. Quando quiseres, podes vir ter comigo. Avisas, e eu vou-te esperar ao Lunaporto, com um ramo de flores. Flores cultivadas por mim num vaso de rególito – é assim que se chama a terra da Lua, sabes? – regadas com água reciclada da respiração e da urina. Não te enojes, a urina é água com sais, tal como a água do mar. Basta destilar.
De vez em quando pegamos no rover e vamos dar um passeio ao Mar das Nuvens, que é lá perto. Não tem água, nem tem nuvens, mas fazemos de conta e passeamos de mão dada.