Gostamos de ler escritos que dizem aquilo que gostamos de ler, como se fosse o nosso coro mas com mais elegância porque para desafinados já bastamos nós, a confirmar e selar tudo o que já pensamos numa repetição endógena e confortável de dizer bem do nosso grupo, clube ou partido, a massajar-nos o ego certificando as nossas prévias escolhas e decisões, mas desconcertamo-nos quando um pensador, no seu melhor fato literário, mostra-nos o que nunca havíamos lido nem sequer entendido até aí, com uma clareza humilhante, fazendo-nos a ganhar novos mundos, novos territórios, com esforço como os holandeses ao mar, não combatendo o nosso velho pensamento mas simplesmente acrescentando-lhe volume e perspectiva.