Um dia vou-me esquecer de ti. Não porque não sejas importante, mas, sabes, não me posso lembrar de tudo ao mesmo tempo. Não é que tenha outras prioridades. Não tenho. És a minha prioridade. Mas a minha cabeça já não é a mesma. Esqueço-me das coisas. Às vezes acordo de noite a pensar num discurso para ti. Não te quero acordar e perco o sono, com a preocupação de não me esquecer. O pior é que adormeço e esqueço mesmo. Passo o dia amargurado com a lamentar as reflexões perdidas. Outras vezes, quando acendo a luz e as escrevo, ao ler, depois, pela manhã, não me lembro de as ter escrito. Parecem-me escritas por outra pessoa. É estranho. Acho que penso em coisas demais ao mesmo tempo, e baralho-as. Ou então uso grupos de neurónios diferentes, consoante a hora do dia, e só por coincidência o grupo leitor é o escritor.
Um dia vou-me esquecer de ti. Só me vou lembrar de ti para sempre se o sempre não durar muito, porque a eternidade é esquecimento.