1. Reencontro

No fundo do porão escuro, mal cheiroso e barulhento, aguardavamos o desembarque de pé, virados para o enorme portão, agarrados às malas, choro de crianças nervosas, conversas e chamamentos em várias línguas na excitação da chegada. Sentíamos as manobras do barco sincronizadas com as operações do motor – arranca, pára, inverte, vira.
Tinham-nos chamado para descer ao porão ainda estavamos fora do porto, para agilizar a saída e entrada de novos passageiros, motas e carros, para o serviço de ferrys ser rápido o suficiente para justificar o nome Jet. Além de proporcionar viagem rápida, de poltrona em salões climatizados com enormes janelas de vidro escurecido com vista para o cruzamento com outros navios e contorno de pequenas e grandes ilhas, no caminho, não se podia perder tempo nas cargas e descargas. Condutores dirigiram-se para os carros e passageiros amontoaram-se junto ao portão de rampa por onde tinham entrado.
Todos se calaram quando a sirene de alarme e luzes amarelas de aviso, intermitentes, e o ruído grave do motor elétrico do enorme portão metálico que se abria com o ranger de metal pesado, ainda o navio manobrava, mostrando a primeira frecha de luz solar da esquerda à direita, de uma ponta à outra, da traseira do porão do barco.

A luz intensa inundou-nos com as pesadas portas traseiras a baixar. Coloquei os óculos de sol com a emoção de Richard Dreyfuss e François Truffaut a abrir-se o portal extraterrestre na Torre do Diabo, no encontro imediato de terceiro grau, mas agora o et era eu. Primeiro o calor, o azul do céu, a luz do sol, o portão a descer, a sirene, o amarelo intermitente do piscar. Em vez do cais surge uma enorme baía do azul intenso, o único, do Egeu. O portão pára de abrir pouco antes de chegar à horizontal. Um tripulante salta para cima dele agilizado pela rotina e grita instruções para o operador algures no convés, por cima de nós, enquadrado pelo cenário, em camadas, de azul celeste, sem nuvens, castanho claro de terra pintada de vegetação rasteira e o azul escuro do Egeu. Os motores diesel aceleram para a rotação do navio e a paisagem começa a rolar como um cenário teatral. Mais montes, céu e azul do mar. Primeiras casas, mais ou menos isoladas, brancas, muito brancas, pintadas de fresco. Desde a primeira vez que cá vim, convenci-me que eles passam as noites a retocar o branco das casas, para nos surpreender pela manhã. Moínhos, sempre os moínhos. Finalmente o cais. Polícias a orientar ruidosamente os carros algo desordenados, apitos, gritos e ordens, autocarros, buzinas, todo o tipo de motoretas a furar, e passageiros rodeados de malas a esperar vez para subir a rampa, na azáfama do grande momento da chegada do ferry da grande cidade.

Palos, a bela Palos que sempre me conforta de memórias quentes nos longos invernos de trabalho frios e escuros. Ainda não decidi se quero viver ou morrer aqui, mas alimento o espírito nessa doce indecisão.

Leave a comment

Design a site like this with WordPress.com
Get started