Chego e não tenho ninguém à espera. É natural, não informei nem pedi. Saio pelo meio de familiares que aguardam ou que se despedem e homens – são sempre homens, ainda estamos longe da paridade – com folhas A4 com nomes manuscritos ou nas mais variadas letras e dimensões disponíveis no Word. Táxis fazem fila para servir marcações prévias, alguns com já três ou quatro serviços previstos. Autocarro da carreira que dá a volta à ilha também já aguarda na paragem e vai encher-se num instante de mochilas e malas de viagem.
Atravesso a rua e sento-me na primeira linha da esplanada em frente ao porto. Nestes momentos há sempre lugares. Toda a gente que fazia horas, pela chegada do banco, levantou-se para embarcar, despedir-se dos familiares, receber a visita ou regresso de quem partiu, ganhar mais uns cobres com o atendimento aos turistas. O assento ainda estava quente. Peço um café frappé.
Por um táxi para o norte, para Pollacka, a cerca de dez quilómetros daqui, vou ter de esperar mais de uma hora, pelo retorno, depois de abrandar o rodopio do despachar gente para os quatro cantos da ilha. Também podia ter marcado, mas o que eu tenho mais é tempo e não quero pagar sobretaxa de reserva.
Vou ficar a beber o meu café gelado, organizar os meus pensamentos e aguardar que os primeiros taxistas regressem e parem para fumar o cigarro da sossega à minha frente.
Recebi o mail de Pierre Müller dias antes.
“Salut Rui, j’espère que tu vas bien
Veux ta réflexion sur l’industrie allemande. Resteront-ils aux avant-postes où rencontreront le plus de difficultés? Quelles solutions proposeront pour les battre?
Un boulot comme d’habitude. Date limite : 20 septembre.
Merci”
O que começara como uma brincadeira de bêbados, tornara-se um caso sério e a minha principal fonte de rendimento.
Conheci Pierre numa festa particular, no Algarve, em Julho 2012, em que eu estava como quase penetra, a reboque de amigos comuns, e comecei uma divertida discussão sobre vinho e a valia dos Riesling e dos Verdes. Pierre era pequeno produtor na Alsácia e eu puxava das minhas origens minhotas, a favor dos meus brancos.
A conversa deriva dos vinhos para os automóveis, quando, a propósito de inovação, Pierre desdenha de deambulações futuristas, com desdém e cinismo, e dá o exemplo de Elon Musk, como valoroso mas fora do mundo da indústria e seu financiamento,
Eu tinha conduzido um Tesla Roadster, semanas antes, em Inglaterra, e estava a par do lançamento do Modelo S, nesse mesmo ano. Durante longos minutos descrevi-lhe porque achava que a Tesla tinha todas as condições para desenvolver carros modulares, baratos, sem manutenção, de construção simples, movidos com baterias de telemóvel Panasonic, bem concebidos, com o peso centrado no chão, e com acesso a toda a tecnologia futurista de comando autónomo da Space X. E estavam na Califórnia, o melhor sítio do mundo para contratar cérebros e obter financiamento.
E disse-lhe mesmo, que se eu tivesse um milhão de dólares, investia-os todos em ações da Tesla e ficaria multimilionário em poucos anos.
Respondeu com uma gargalhada.
No fim, com a conversa meio entramelada mas sem perder compostura, com a confiança solta pelo álcool, trocamos cartões, e descubro, para meu espanto, que estivera a discutir estratégia da indústria automóvel com Pierre Müller, diretor da La Voiture, uma das maiores e mais conceituadas revistas do setor, do mundo.
Na semana seguinte, recebi um e-mail todo tutoyant a convidar-me para escrever um texto sobre o assunto Tesla, para possível publicação antes do final do ano. Achei piada ao desafio, escrevi e enviei. Foi corrigido e adaptado, com o meu conhecimento e autorização, publicado, fez polémica, e ainda hoje é falado pela premonição e pela fortuna que não ganhei, nem ninguém, além de Musk.
Depois disso, escrevo artigos, trimestralmente, sobre a indústria, tendências e até desporto automóvel. A decadência japonesa, a pressão coreana, a dependência governamental de franceses e alemães, os erros de Sergio Marchionne, o isolamento americano, deslocalização de produção, a China produtora e cliente, elétricos, híbridos e convencionais, as trapalhadas no WRC e como os americanos criaram o definitivo circo na F1. Os artigos são tão longos que os dividem em dois, três e quatro partes, em publicações mensais. Têm ótimos editores para isso.
A minha vida deu uma grande volta e já está a ser proposto o lançamento em livro.
O primeiro taxista chegou à praça, saiu do carro e acendeu um cigarro. Sentado, fiz-lhe sinal e apontei para o meu café. Assentimos cumplicemente.
