3. Instalação

As Cíclades são o meu algarve, da mesma maneira que o Algarve foi o algarve das gerações anteriores até à montagem espaventosa dos anos noventa e seguintes que destruiu quase tudo que não estava protegido, e continua. As Cíclades são o meu conforto quando procuro sossego, calor, águas cálidas, tranquilidade, paisagens, praias, gente boa, sem casinos, sem golfe, sem autoestradas, sem construção civil, nem trânsito.
Consegui reservar o meu quarto de hotel para todo o mês de setembro. Não discuti o preço, também não sou eu que pago. Disse para onde queria ir e alguém, de Paris, tratou e pagou. A despesa está dentro do orçamento de produção que Pierre me atribuiu. Não sei qual é o limite, mas sei que um mês num pequeno hotel, na ponta de uma ilha remota, está perfeitamente compreendido. Temos o acordo tácito de que só escrevo fora de casa. Para escrever doze artigos, um por cada edição mensal, pagam-me doze semanas por ano, num qualquer sítio à minha escolha, todas seguidas ou alternadas, como der mais jeito. Mas só o alojamento. Viagens, alimentação e extras são por minha conta.

Chego a Pollacka, de táxi, por uma estrada serpenteante a descer em direção ao mar. O porto de pesca à esquerda e o casario amontoado num pequeno promontório, à direita, a proteger as embarcações dos ventos de norte.

O hotel fica ao fundo da rua estreita, sem saída, que divide a povoação a meio, junto à igreja, que, na extremidade, abre o seu terreiro sobre o mar. Uma casa de dois andares e aspecto novo mas modesto, com poucas janelas para a rua. A entrada é por uma pequena porta, em arco de pedra, para um corredor estreito, junto às escadas para os andares superiores. Passo pela portaria, na lateral, por baixo e a seguir às escadas, e chego a uma ampla varanda em socalcos, com sofás e mesas de verga, cortinas brancas esvoaçantes, aberta sobre o quebra mar, onde fizeram uma pequena plataforma de cimento e escada metálica, para ir-se a banhos. A planta do edifício é em forma de quarto de círculo, entre casas, pequeno na entrada mas aberto ao mar nas traseiras

“- Bem vindo, Rui. Espero que tenha feito boa viagem agradável.
O seu quarto já está preparado.”

Eleni conhece-me doutra vida. Nunca fez perguntas mas sei que sabe tudo. Tem a particular qualidade, de quem sabe receber bem, de nunca passar o limite da intimidade familiar ou profissional. É importante saber os gostos, alergias, horários e vícios dos clientes, mas nunca, nunca se deve perguntar pelos ausentes, pelo sucesso ou pela saúde, exceto se o próprio puxar o tema. E, mesmo assim, com extremo cuidado. Se o cliente quiser intimidade fica em casa. E se quiser intimidade fora de casa, há locais mais apropriados para isso.

O meu quarto é no segundo andar, réplica miniatura do terraço térreo, virado a nascente, para o mar e para as ilhas desabitadas com discretas praias, em frente, que visitei à vela noutros tempos.

A rotina dos dias é muito simples.
Acordo pelas seis da manhã, antes do sol nascer mas já a anunciar-se, e desço silenciosamente, de calções, chinelos e toalhão na mão, guiado por pequenas luzes de presença no pavimento, até ao exterior virado ao mar. Não há ninguém a pé, os outros hóspedes ainda dormem e Elleni ainda não chegou. A porta da rua está fechada, mas o terraço está todo aberto ao vento. A temperatura mínima não desce dos vinte graus e o vento permanente faz de ar condicionado natural.
Mergulho no mar e dou algumas braçadas para equilibrar a temperatura. O ar exterior está a vinte graus e o mar está a vinte e cinco, mas sinto frio. Estranho esta sensação de frio, por mais que me lembre que o ar é um excelente isolante térmico.
Demoro a sair. O céu clareia em raios de rosa e nuvens dispersas. As leves ondas embalam-me. Mergulho, abro os olhos no escuro, nado de costas, afasto-me e aproximo-me. Lembro-me de que se me desse um treco e desaparecesse nas águas, alguém ia inventar uma conspiração, com base na displicência com que larguei chinelos e toalhão no chão, à volta do jornalista maldito que enfrentou e desacreditou poderosos lóbis industriais.
Saio, passo-me por água doce no pequeno chuveiro, enxugo-me e subo ao quarto. Calções secos, t-shirt e chinelos; pequeno almoço de iogurte, fruta e café na copa de apoio. Sento-me na mesa da varanda, encostado à direita para proteger, a mim e ao ecrã do portátil, da luz do sol nascente. Trabalho ininterruptamente até ao meio dia, só com pequenas pausas para comer, até que a temperatura sobe de vez e o ângulo do sol já não permite proteção sem guarda-sol.
Em termos de trabalho, os primeiros dias são quase perdidos em análise, raciocínio e pesquisa na internet. Neste caso específico, tenho de rever os relatórios e contas dos últimos três anos, de cada um dos três grupos alemães fabricantes de automóveis; ler os seus planos estratégicos, publicados para acionistas; rever legislação ambiental europeia e prazos de implementação de medidas; previsões económicas para os principais mercados; demografia e migrações; mercado energético; notícias tecnológicas e muita atenção à política, do que se diz e não diz, e possibilidade de guerras comerciais. O resto é talento e intuição.
Na hora do almoço, volto a comer algo ligeiro no quarto, fruta e uma sande, e saio para ir para a praia.
Gosto de apanhar o autocarro, misturado com autóctones e jovens turistas, para as praias mais distantes e exóticas, onde não há música nem raquetes. Vou para uma diferente, todos os dias, e repito na semana seguinte pela ordem que me apetecer no momento. Passo lá a tarde, entre banhos, sol e dormitar. Ao fim do dia mando um WhatsApp com o pin do Google Maps do sítio onde estou para Vasilis, o taxista de Pollacka. Ele responde-me passado uns minutos com um código de quatro dígitos – hora e minutos a que chega. Pode ser logo a seguir ou uma hora depois, depende do que anda a fazer e por onde. Nunca falha. E volto ao hotel com ele.
À noite, escolho um dos pequenos restaurantes junto ao porto. Fico bem com tomate, pepino, beringela, queijo feta, iogurte, atum grelhado, chocos fritos, peixe, melancia, tudo escrito com deliciosos nomes gregos, Spanakopita, Kolokythokeftedes, Souvlaki, Yemista, Dolmadakia.

Em menos de três semanas, mandei o trabalho para o Pierre. Foi um artigo para três meses. Eles vão editá-lo e dividi-lo em três, são bons nisso. Pierre deve estar divertidíssimo. O artigo é suficientemente ácido e polémico para provocar ameaças de retirada de publicidade. Vão retirar mesmo, mas o sucesso editorial vai trazê-los de volta. E vão pagar mais caro, como novos anunciantes.

Sentei-me ao serão, na minha varanda, virado para o Meltemi, o vento norte das Cíclades, quente e seco. De maio a setembro sopra todas as semanas, por vezes durante vários dias, e chega a atingir cinquenta quilómetros por hora. Assusta e perturba os forasteiros.
Hoje era dia de Meltemi. Relaxou-me.

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