Aquele que eu fui morreu em dois mil e treze.
A culpa não foi de ninguém. Foi uma daquelas combinações aleatórias que nunca deveria ter acontecido. Estava tudo bem e de um momento para o outro tudo mudou, o emprego acabou, a carreira desapareceu, a família desfez-se, o fogo da vida apagou-se.
Aos quarenta e cinco anos, experiente, com responsabilidades, sou largado num mundo em crise, com o encerramento da empresa onde trabalhava e com os concorrentes também a despedirem. Já não tinha idade para emigrar e a única solução era sujeitar-me a trabalho desqualificado ou reaprender outra profissão, outro ofício, perder rendimento, aceitar mudar de vida, provavelmente mudar de casa.
Um homem sem trabalho já é um drama, um homem a perder o comboio da carreira é o início de um longo processo de decadência. Rotinas, amigos e pequenos orgulhos desaparecem. As conversas soam vazias e gabarolas de vencedores de jogos com regras que já não me interessam. O mundo pequenino das pessoas pequeninas, que eu também fora, desapareceu. Dei por mim a olhar à volta triste por mim e por eles.
Acabei por perder a família numa sucessão rápida de incompreensões e desentendimentos. No momento mais tenso fui incompreendido. Fui atiçado quando precisava de abrigo, acusado de inação, e senti-me incapaz de reagir e explicar. Procurei paz e conforto, ser querido, e refugiei-me nos braços de outra que afinal eu também não queria. Desgastei-me numa dupla traição de um homem, perdido, carente, sem defesa e já sem passado.
Posto fora, larguei tudo. O meu filho nunca mais me falou e diz que não precisa de mim. A mãe tem rendimento, património, prestígio e estatuto, para descartar um falhado da vida que desrespeitou o sacramento e manchou o seu nome.
Planeei tudo metodicamente. Uma saída de cena rápida, indolor, discreta e suficientemente dúbia e acidental, como uma viragem de página para os poucos que se importavam. Um pequeno incómodo rapidamente ultrapassado com flores descartáveis e palavras de circunstância.
Eu não fazia sentido, não entusiasmava, era um embaraço para os herdeiros, uma decadência de pessoa. Nada mais interessava.
Por um acaso da vida, que já vos contei ali atrás, o diretor de uma das revistas mais importantes e populares do setor automóvel encontrou um engenheiro metalúrgico fornecedor de peças, com experiência a lidar com as exigências e fraquezas dos fabricantes, autodidata de estratégia comercial internacional, devorador durante décadas de todas as publicações técnicas, acompanhando o estado da evolução, interessado o suficiente por história, política e economia internacional para saber o nosso lugar e caminho, com o cinismo crítico, temperado pela vida, suficiente para não se excitar com novidades propagadas por modas, solitário e cansado da vida, sem necessidade de sorrir nem agradar para viver.
Pierre diz agora que confia na objectividade e honestidade das minhas análises, e que aprecia a métrica e ritmo da minha escrita. Não sei, perguntem-lhe a ele. Eu faço o que posso.
Ele nem sabe que eu já não conduzo, nem sequer carros de aluguer. Zanguei-me com os automóveis; com o risco e violência de mais de uma tonelada de aço a rolar a cem quilómetros por hora, dirigida por um tipo sem talento nem formação, distraído a falar ao telemóvel, com as paisagens verdes violadas por asfalto, betão, redes, sinais, publicidade e permanente ruído de camiões. Zanguei-me com as cidades transformadas em circuitos urbanos. Só tenho carta para os testes que me convidam e pagam.
Todos os meses, uma equipa técnica de cinco jovens engenheiros desloca-se, a convite das marcas ou de motu proprio, requisitando veículos, para fazer testes e ensaios a novos modelos ou versões. Num circuito fechado, numa estância de verão, no inverno, ou de ski, no verão, monta-se um verdadeiro laboratório de mecânica, acústica, análise de gases de escape, volumetria, dinâmica, resistência, iluminação. Pilotos profissionais levam os carros aos limites. Pierre faz questão que eu esteja presente. Quer a minha opinião sobre o que os outros não dizem: conforto, infotainment, ergonomia, facilidade e prazer de condução, assistência em viagem. Durante um dia inteiro faço centenas de quilómetros, simulo todas as situações, avarias e reclamações. Faço um relatório privado para Pierre. As minhas observações aparecem normalmente no fim do artigo, sem assinatura. Sou bem pago para isso. É única razão para ainda renovar a carta de condução.
O sucesso aparece quando e onde menos se procura. Trabalho, conhecimento, talento, por esta ordem, são essenciais, mas sem a ponta de sorte que inesperadamente nos coloca no sítio certo no momento certo, nada acontece. Não é tudo por acaso, não é um meteorito que cai do céu mesmo em cima da nossa cabeça. É sair, procurar, falar, incomodar, mostrar, até que alguém repare e nos reconheça o valor.
O mais certo é que nunca aconteça mas sem trabalho, conhecimento, talento, promoção e demonstração, nunca a sorte há-de dar connosco.
Mais vale cair em graça do que ser engraçado.
Hoje percorro os mesmos lugares, terras, cidades, praias, jardins, hotéis que o outro homem percorreu até 2013, como se seguisse os passos de um morto com curiosidade mórbida, invejoso do que foi e do que poderia ter sido. Não é saudade. Na verdade, aquele era outro homem que ficou lá trás. Passo à porta de casa, que hoje é habitada por estranhos, e revejo todos aqueles momentos. As gargalhadas, os sustos, o amor, as alegrias, as novidades, mas também o chumbo no fim. Revejo os lugares como quem revê um filme. Ele tinha bom gosto e era bem guiado.
Estou a escrever três livros. Quem diria?
Os três são biográficos e nenhum conta a história da minha vida. Têm saltos e episódios parcialmente vividos por mim. Nenhum começa como eu comecei, passa pelo que eu passei nem termina como eu sei que vou terminar, mas contam o que eu me orgulho, os medos que tive, parte do que fiz e o que queria ter feito, quase tudo inventado. Na minha cabeça, vive comigo todos os dias.
A minha mais fiel e discreta leitora, a quem mostro o que escrevo, nem sempre responde ou comenta. É a única voz que ouço e deixo que me oriente. Já lho disse, mas julga, sinceramente, que estou a brincar.
Há muitos anos, quando lhe apresentei a minha noiva, comentou discretamente, entre dentes, “Tinhas de arranjar uma flausina”. Incomodou-me a franqueza rude que fiz por esquecer. Achei que era despeito e ciúmes. Ela não era a mais bonita, sabia dos meus gostos simples e da minha fraqueza por carinhas larocas.
Todos os dias ouço aquelas cinco palavras, sussurradas ao vento entre o bater das ondas.
