Não tinha por que voltar. Ninguém me esperava. Estava no melhor sítio para viver.
Depois de dois dias sem rotina nem disciplina, decidi escrever mais alguns capítulos dos meus livros. Precisava de tempo e repouso.
– Olá Eleni. Queria ficar mais algum tempo. Tenho quarto?
– Claro que sim, Rui. Quantos dias?
– Até ao Natal… Do próximo ano.
– Perfeito.
Entrando em outubro, as temperaturas do ar e da água pouco baixaram. O céu manteve-se sem nuvens, o vento amainou. Só os dias se alteraram, mais curtos. Os turistas quase desapareceram, a ilha ficou entregue a pouco mais do que os seus cinco mil habitantes.
Mantive o hábito do mergulho matinal, mas atrasei o despertar uma hora. Amanhecia mais tarde. Continuei a escrever na varanda do quarto. O sol e o calor do meio dia já não me incomodavam como dantes. O sol não se erguia tão alto, não tinha a mesma intensidade, e a sombra da parede lateral era mais longa. Conseguia escrever até depois das três da tarde, quando corria bem, com água, fruta, bolachas, sandes, sumos e café.

Com menos turistas, o serviço de autocarros foi bastante reduzido. As frequências passaram para menos de metade. Já não podia confiar na disponibilidade à saída de Pollacka. Com o fim das férias, Vasilis passou a ter contratos fixos de transporte de crianças, idosos e doentes, que lhe ocupavam grande parte do dia, além dos poucos visitantes que ainda apareciam. Garantia-me o regresso ao hotel, ao fim do dia, mas estava por minha conta e risco para a ida para as praias, ou outros destinos, ao princípio da tarde. Chegou a propor emprestar-me a sua velha scooter, mas recusei. Já não tenho idade para esfolar joelhos.
Eleni resolveu-me o problema. Havia uma rede de distribuidores de víveres, consumíveis variados e combustíveis, que cobria toda a ilha. Eram seus fornecedores e amigos, passavam no hotel, com os seus pequenos furgões, de manhã cedo ou depois do almoço. Eu nunca sabia qual deles ia passar, depois de eu estar pronto para sair, muito menos sabia para onde iam seguir. Dependia das necessidades e pedidos dos seus clientes. Diverti-me com a roleta dessa boleia, de ir parar aleatoriamente a qualquer ponta da ilha. As hipóteses não eram muitas, é certo, a ilha é pequena, mas nunca sabia para que lado ia. Gostei do jogo.
Ao fim do dia, para voltar, recorria a Vasilis, da forma habitual, por WhatsApp. Com os dias mais curtos, com o pôr do sol já antes das sete horas, voltavamos mais cedo a Pollacka. O meu serviço costumava ser o último de Vasilis. Fora do verão, raramente trabalhava à noite.
Um dia, quando chegavamos, convidou-me para lhe fazer companhia num café com amigos, que se repetiu nos dias seguintes. Vasilis e Giorgios eram os únicos que falavam inglês suficiente para manter conversa. Giorgios era um pescador reformado que adaptou o seu velho barco para passeios turísticos de verão. Já o tinha visto, semanas antes, a manobrar habilmente o seu velho Nissan Micra, em cima do cais, quando trazia, manhã cedo, mantimentos e bebidas para abastecer o barco para os clientes do dia. Era uma figura. Barrigudo, grande e entroncado, tatuagens nos braços, sempre de t-shirt justa e um lenço ao pescoço, de poucos sorrisos, com a sua voz gutural, contava sempre uma história divertida dos seus tempos de pesca, das peripécias com turcos nos vários anos que serviu, em jovem, na marinha de guerra grega, ou, as melhores, com os turistas que lhe saem em sorte, a cada dia.
Outro dos habituais convivas de fim de tarde era o padre. O adro da igreja era mesmo ao lado da pequena esplanada do café. Da primeira vez, já estavamos sentados, vi-o a apagar as luzes, fechar a igreja e a dirigir-se para nós, com as suas longas barbas brancas. Vasilis rapidamente foi buscar duas cadeiras e colocou-as a meu lado. Exagero, pensei, o padre não era assim tão gordo. Ergueu ligeiramente a batina, para não repuxar, sentou-se e pousou o camelauco, o chapéu negro cilíndrico dos padres ortodoxos, na cadeira vaga, como se despisse momentaneamente a solenidade ortodoxa. Sentado, a batina parecendo um casacão preto, e sem o camelauco, tornava-se mais divertido e descontraído, um velhote simpático, de longas barbas brancas. Pelo menos assim me parecia.
Eu bebia café frappé. Vasilis também, porque estava de prontidão no táxi. Giorgios bebia ouzo, com gelo e água, e depois de repetir a dose já se notava o efeito. O padre bebia sumo de romã, engarrafado, diluído em água. Apercebi-me que, para ele, a bebida já vinha na bandeja, aberta e servida no copo, ao arrepio das normas hoteleiras. Com todos os outros clientes, a garrafa era aberta junto à mesa, onde diluiam o sumo de romã em água. Imaginei um pacto de silêncio, mantido por todos, sem questionar. Também me calei. Giorgios não seria o único a beber ouzo naquela mesa.
Após beber o sumo, o padre tornava-se mais falador. Com a ajuda da tradução de Vasilis, fiquei a saber que se chamava Elias, padre Elias, e fiquei a saber muito mais, nos vários fins de tarde que partilhamos na mesa do café virado para o pequeno porto de Pollacka.
Na ilha de Palos há cento e quarenta e quatro igrejas e capelas, todas construídas viradas para poente, brancas, com a bandeira azul e branca, símbolo da ortodoxia grega, hasteada bem alto, quase todas oferenda de privados, dentro de terrenos privados, algumas tão pequenas que não terão mais de dois metros quadrados. As dos cumes dos montes são todas dedicadas a Santo Elias, numa curiosa coincidência com o nome do padre que me fez julgar perceber mal.
Elias é nome de profeta, um dos profetas do Livro dos Reis, do Antigo Testamento.
O profeta Elias, depois santo, contemplava e meditava enquanto adorava e orava a Deus. Esta interpretação das escrituras, pelos primeiros teólogos da Igreja, fez surgir a tradição de monges eremitas, silenciosos e contemplativos, que se instalaram também nos cumes de Palos, em proximidade ao céu, eremitério, contemplação, silêncio, erudição e oração.
As capelas e igrejas dedicadas a Santo Elias são tantas como os cumes e montes de Palos, mas muito longe, em número, das cento e quarenta e quatro do total. Disse-me o padre Elias que todas as outras são dedicadas a um único santo, São Nicolau, padroeiro dos marinheiros e mercadores. O mesmo São Nicolau, amigo das crianças, que originou o mito do Pai Natal, e também padroeiro dos estudantes, festejado nas festas nicolinas de Guimarães, acrescentei eu.
Durante vários dias e semanas, falamos de muitas outras coisas, futebol, política, do tempo, das temperaturas começarem a baixar, da pouca consideração que têm pelas elites de Atenas, do campeonato português que conhecem melhor do que eu. Giorgios fartou-se de elogiar o jogador Podence, na sua passagem pelo seu Olympiacos do coração, mas eu surpreendi-os quando disse o nome de quatro jogadores gregos que passaram pelo Benfica. Karagounis e Katsouranis, ainda do Euro 2004, o Mitroglou do penteado esquisito, e o melhor nome de sempre de guarda redes, Odisseas Vlachodimos. Para eles passei a ser o benfiquista. A partir daí, tive todas as informações do campeonato português, resultados e transferências, em primeira mão, que agradecia e fingia apreciar.
Estes momentos de descontração e convívio, nestas semanas de outono, fizeram-me bem. Alguns minutos por dia, às vezes uma hora, a falar de religião, política, futebol ou do tempo, aprender muito com ilhéus de um mar que já foi o centro do mundo e agora é a fronteira do ocidente.
A escrita começou a correr melhor, nesta terra abençoada por Santo Elias, profeta da contemplação e do silêncio, e por São Nicolau, padroeiro dos amantes do mar, cristianização popular de Poseidon.
Pensar, escrever, caminhar, nadar, mergulhar e navegar.
Eleni
Nunca satisfiz a curiosidade que tinha sobre Rui. É escritor mas não sei o que escreve. É português mas escreve em francês, para franceses. Gosta de mim e da minha ilha de uma forma quase comovedora. Não pergunta, não interfere, passa o mais discreto que pode, contempla tudo.
A última vez que o vi foi num serão no início de novembro. O hotel estava quase vazio e nessas alturas Rui sentava-se na sala grande, virado ao mar. Via as estrelas, as luzes de Chora, do outro lado do canal, os ferrys muito ao longe, e olhava o telemóvel. Nunca lhe fiz perguntas, mas sei que procurava fotos e histórias de uma pessoa. Encontrava-as e via-as com sentimento, nunca percebi se de saudade, amargura ou ansiedade. Acho que ele próprio não sabia. Não era trabalho. Também não sei se era uma pessoa do passado ou de agora, se passada ou com futuro, mas era uma pessoa importante para ele.
Nesse dia algo aconteceu. Leu o que alguém publicou ou lhe escreveu, alegrou-se, trocou várias mensagens com aquela cara de idiota que se tem a sorrir para um telemóvel, levantou-se, veio ter comigo, acertou as contas do hotel e surpreendeu-me com um beijo na face. Saiu nessa madrugada.
No ano seguinte, no final de agosto, mandou-me um e-mail:
“Olá Eleni
Estou bem
Obrigado por tudo”
E lá aceitei a marcação, para setembro, daquele casal de velhotes suecos que tanto insistia. Nesse outono tive saudades daqueles serões silenciosos e contemplativos, a ouvir as ondas a bater nas pedras, a farejar o vento. Com o Rui.
(fim)