Até ao século dezoito, o desígnio de vida de um europeu era salvaguardar um lugar no céu. Construíam igrejas cada vez maiores, engrossavam enormes procissões e peregrinações, ofereciam-se para combater na guerra santa contra os infiéis. A vida terrena não tinha importância, a sua qualidade também não. Morria-se e matava-se por muito pouco, escravizava-se e batia-se indistintamente. As famílias criavam filhos em grande número, que eram pouco mais do que unidades de produção de uma economia agrária e de manufatura.
As execuções também se adaptavam à encomenda das almas. Os hereges eram queimados, os criminosos eram enforcados. A única morte honrada era a decapitação, reservada a nobres, em processos mais ou menos políticos.
Sociedades relativamente sofisticadas e industrializadas, como a japonesa, mantiveram estas práticas até ao seculo vinte, em que morrer com honra era mais importante do que a própria vida. Até à segunda guerra mundial, perante um embaraço grave, não se hesitava no hara-kiri. Também não faltavam voluntários para ataques kamikaze.
O século vinte e um também abriu com espetaculares ataques suicidas, complexos e meticulosamente preparados, por motivações religiosas, agora perpetrados por radicais islâmicos, num ressurgimento das piores práticas medievais.
Felizmente o ocidente já passou a fase do fanatismo e da desvalorização da vida. A ciência permite viver cada vez mais tempo e com qualidade. A instituição mais valorizada pela sociedade é o serviço nacional de saúde. Mas será que vivemos com qualidade de vida moral? Somos felizes?
Somos herdeiros de décadas de lutas de classe e pelos direitos cívicos das minorias. Com defeitos ainda por corrigir, praticamente atingimos a equidade social, com a educação e saúde gratuita, e não há, ou tende a não haver, discriminação de raça ou de género. Mas porque é que somos tão infelizes, pelo menos aparentemente, com permanentes revoltas, greves e conflitos sociais?
A infelicidade social tem a ver com a forma como se progride na sociedade e nas suas etapas. Inicialmente é necessário subsidiar os mais pobres, dar de comer, dar casa, dar medicamentos, isentar de impostos, de forma a que possam beneficiar de oportunidades em igualdade de circunstâncias. Ao mesmo tempo é necessário criar quotas para que as minorias, geralmente pior formadas pela discriminação a que foram sujeitas, possam aceder aos mesmos lugares de trabalho, gestão e responsabilidade das maiorias.
Tudo isto custa muito dinheiro pelas ineficiências que provoca. No início, os melhores preparados e produtivos têm de ceder riqueza, pagar, para melhorar as condições de vida dos mais pobres, e também têm de ceder lugares às minorias.
Numa sociedade ideal, passar-se-á depois para a fase seguinte, que é a de haver mais gente, melhor preparada e diversificada, a contribuir para o desenvolvimento económico e social global, numa sociedade liderada pelos melhores, independentemente da sua origem.
Mas a nossa sociedade não é ideal. Há um fator importante que não podemos descurar: a atração e fixação pelo poder.
Quem detém o poder, num determinado momento, não tem interesse em que a sociedade se desenvolva além do que já está. Porque desenvolvimento traz novos desafios, novas soluções, novos protagonistas, novos rivais. O que fazem é distribuir a riqueza já arrecadada, em operações de cosmética social, disfarçadas de progresso, para que não se alterem as condições do momento. Enquanto houver aforro, riqueza ou património para taxar, e capacidade de endividamento, vão tentar manter tudo como estiver, sem reformar.
Este poder pode ser do estado, dos governos nacionais, regionais ou autárquicos, mas também é das oposições, lideranças partidárias, corporações e associações profissionais, sindicatos, associações patronais, todo o tipo de poder, grande ou pequeno. Quem acede ao poder nunca quer reformar.
Mas há um limite e este já foi atingido nos países da Europa ocidental. Chegou-se ao limiar em que os recursos para manter a sociedade actual a funcionar, as operações de cosmética, já absorvem o quinhão que deveria ser gasto em investimento para criar novos postos de trabalho e para remunerar melhor os que já existentes, novas oportunidades, para construir ou reconstruir casas, ou remodelar, para criar riqueza em geral.
Não há investimento público porque o estado gasta tudo na manutenção da situação, e não há investimento privado porque o estado exaure a economia com impostos, também para poder pagar a manutenção da situação.
Vive-se com uma sensação de fim dos tempos. Corremos o risco de aparecer alguém a convencer-nos de que isto já não vale a pena, não tem saída, e que o melhor é começarmos a tratar da alma.
Foi sempre assim na história.