Tempos modernos

Um homem preso na sua condição social, sem reconhecimento, mal remunerado por um trabalho monótono e sem responsabilidade, olha-me nos olhos num misto de temor e incompreensão.
Reconheço este olhar há muitos anos e sei que é o de um animal preso numa rotina de esforço, desconforto e dificuldades, de uma vida dura e sem esperança.
Na primeira oportunidade vai-se desagrilhoar, reclamar e apossar-se do que julga ter direito, numa euforia fátua empurrada por entusiasmos revolucionários engajados noutros domínios, empurrando, calcando, talvez matando como outros fizeram no tempo dos seus pais e avós.
Não tenho medo, na minha tranquilidade de quem sabe que está certo, retribui acima do exigido, proporciona melhores condições do que o que é obrigado, e paga mais de impostos do que o que ganha para si. Não tenho medo, mas tenho o desconforto de quem tem de lidar todos os dias com quem não está bem, não gosta do que faz, nem gosta de mim.
Vivemos numa roda dentada de interesses que se engrena noutra de vaidades e poder. Poder, este, que se exerce por si só, político, sem objectivos nem desígnios, sem sonhos nem imaginação, numa manifestação de vaidade oca de suas excelências em palácios decrépitos. Um poder oportunista e despercebido, que ilude incautos e promete quimeras, redesenhando um rascunho em que já nem ele acredita.
Vou varrer o problema para debaixo do tapete, fazer o que já fiz dezenas de vezes, substituir o homem por uma máquina sem olhos, sem filhos para alimentar, sem sentimentos, impessoalizar o trabalho. Vou deixar o encargo social para outros, um problema para a sociedade dos burocratas inteligentes, para todos nós, para o último que apagar a luz e fechar a porta.

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