Virou-se para mim e desabafou.
– Sou um privilegiado. Tenho uma mão cheia de amigos à distância de um telefonema, que sei que me dão abrigo e conforto sem hesitação, ouvem-me e consolam-me. Fazem-me isso pelo que fui, pela memória, por consciência, boa ou má. Fazem isso porque devem fazer e não têm ressentimentos em relação a mim.
Mas não é isso que eu quero.
Gostava de me procurassem pelo que sou e posso vir a ser. Discutir o futuro, caminhos, alternativas e soluções. Resolver e melhorar o que temos.
– Mas será que querem melhorar ou mudar o que têm?
– Pois… acho que não. Preferem viver no consolo do presente e celebrar o passado, sem acautelar o futuro.
– Fazem bem em viver o presente que têm.
– O presente não existe, é uma ilusão fugaz. É como a projeção de um filme de celulóide. Tens a fita do passado, do que já viste e viveste, e a fita do futuro, de um filme que não sabes como vai acabar. Sabes, mais ou menos, quanto vai durar, noventa minutos, talvez, mas não sabes se vai ter final feliz ou dramático. Ou se a fita vai arrebentar a meio e não há mais filme.
– Mas se não sabes o que vai acontecer, é avisado viver o presente, a cena do momento desse teu filme, da melhor maneira possível.
– Não! Isso é uma pobre alegoria. No filme das nossas vidas, nós somos realizadores e atores da nossa produção. Podemos decidir o enredo, personagens, ritmo e estilo. Mesmo sem meios e sem orçamento, podemos filmar cenas paradas, com a câmara à mão, e fazer uma obra prima. E mesmo que não filmes nada, deves escrever uma história ou várias histórias, ou só uma história com vários finais possíveis.
– Estou velho para isso.
– Não! Ninguém está velho para filmar o futuro.
Comprei pipocas e sentei-me a ver o filme dos outros.