Josefina desceu ao pátio e começou a estender roupa mecanicamente, sem pensar. A rotina do trabalho, o movimento, o esforço físico acalmou-lhe a emoção. Não percebeu o que aconteceu, foi muito rápido e inesperado. O desconforto do toque forçado e o medo da vulnerabilidade cobriram-na como um manto negro entorpecente. Só via as mãos, as molas, a roupa.
Tontura, enjoo.
O que a princípio lhe parecera um acidente, uma trapalhada, um embaraço, agora causava-lhe medo e vergonha.
Estendia a roupa.
Encostara-se, encolhera-se, desviara-se, mas ele apertou-a. Ele tinha espaço, foi propositado.
Revolta. Estendia as toalhas.
O aperto não tinha sido forte mas sentia-se amassada, dorida, e também um ardor como o de vinagre em ferida aberta.
Suja. Dor.
Estendia mais um lençol.
Queria arranjar-se, refrescar, lavar, despachar o serviço.
Outro lençol. Nojo.
Uma toalha de mesa.
“…
-Que se passa rapariga? Não me respondes?”
Nem se apercebera que a Rosa falava com ela. Rosa era ajudante de cozinha, mais velha, mãe de filhos. Vinha do armazém, ao lado da adega, com um saco de cebolas para a cozinha.
“-Que cara é essa? Estás a chorar?”
“-Não. Não é nada.”
Outra toalha.
“-Eu ajudo-te”.
Só faltavam três peças. Rosa pousou as cebolas e ajudou a dependurar o resto em silêncio.
“-Anda comigo beber água à cozinha.”
Àquela hora, a meio da tarde, havia pouco movimento na pensão. Os quartos estavam vazios, a sala de refeições já estava em silêncio, a louça do almoço lavada e arrumada. Preparava-se já o jantar, mas o movimento da noite não era nem metade do do meio dia.
“-Então, rapariga, estás doente?”, perguntou Rosa percebendo que o mal era da alma e não do corpo. “- Alguém te fez mal? Foi com a tua mãe?”
Josefina chorava, bebia água mas continuava com a boca seca. Não se queria sentar. Ninguém se senta na hora do trabalho. Mas estava tonta. Não estava bem. Tinha medo de sentar. Tinha medo de Manolo. Não queria que a vissem fragilizada, principalmente ele. Já bastava a Rosa a fazer tantas perguntas.
Não queria falar. Não queria contar à Rosa. Estava com medo que contasse à mãe. Os pensamentos e os sentimentos atropelavam-se na sua cabeça. Medo da severidade da mãe. A relação com a mãe era muito distante. Não se lembra de um sorriso ou abraço dela. Tudo regras, obrigações e aparências. Por onde ir, a que horas, para quem olhar, como vestir, o que dizer. Jogo de silêncios. Se falhara nalguma coisa, a culpa era dela. Era sempre.
Para onde ir? Não queria ir para casa. Não queria ficar aqui. Manolo andava por cá e a mãe estaria mesmo a chegar do lavadouro. Josefina viera à frente, mas a mãe viria logo atrás, com a trouxa maior de roupa lavada.
Pálida, sentou-se num banco.
“-Ó rapariga, conta lá o que se passa contigo!”
“-Estou enjoada… dói-me.. aperta-me…”
Sentada, pressionou a saia à frente e passou a mão ligeiramente entre pernas.
A expressão de Rosa endureceu. O mal não seria só de espírito.
“-Que tens? O que te aconteceu? Como é que dói?”
“-Apertou-me… com força. Raspou… grossos.” Foi dizendo entre soluços
“-Quem?” Rosa começou a ficar nervosa.
“-Ele…” Apontou para fora. Ali, àquela hora, não havia outro ele. “- O senhor… o senhor Manolo.”
“-O que é que ele te fez?”
“-A mão… apertou…” E voltou a pressionar a saia à frente.
Rosa enrubesceu-se e ficou bastante agitada.
“-Porco!” Disse alto, sem tomar cuidado se alguém a ouvia. “- Porco! Não tem respeito nem pela própria carne. Anda comigo, vamos ter com a tua mãe. Larga tudo!”
De mão dada, Rosa descia a rua a passos largos rebocando a miúda a enxugar as lágrimas como pôde. Passaram a casa delas e alguns metros abaixo já vinha a mãe de Josefina carregada com a trouxa final da lavagem desse dia.
“-Ó Mariazinha. Abra aí a porta e vamos dentro de sua casa. Preciso de falar já consigo.”
“-Não posso mulher. Estou carregada.” Mas olhou os olhos vermelhos da filha.” – Que te aconteceu?”
“-Abra a porta, por favor. Preciso falar consigo. Pouse isso lá no chão.”
“-Ajuda-me! Tira-me a chave aqui do avental.”
Lá entraram, pousou a trouxa húmida e pesada no chão.
“-Que te aconteceu Josefina? Magoaste-te? Fizeste asneira?” Asneira. Culpa. O jeito da mãe. Não queria falar. Não conseguia.
“-Foi aquele porco. Deitou-lhe a mão.”
A mãe empalideceu. Olhou para Rosa.
“-A mão?”
“-Apertou-a. Mexeu-lhe.” Disse fazendo o gesto com a mão em baixo, côncava e com a palma para a frente.
“-Minha filha, anda cá comigo. Deixa-me lavar-te e mudar-te a roupa.”
A mãe de Josefina era a decisão em pessoa. Quando parecia que ia ceder, sob tensão, imediatamente tomava uma decisão e avançava.
“-Rosa, vai indo para cima que já lá vou ter com a roupa.”
“-Não, Mariazinha. Fique aí com a sua filha. Eu levo a roupa e dependuro-a no estendal. Trato disso. Fique com a sua filha.”
“-Tu não voltas lá. Aquele homem desgraçou a minha vida mas não vai desgraçar a tua. Acabaste a escola, foste mais longe do que queria e do que é necessário. Vais trabalhar para os ingleses. Precisam de mulheres lá, para encher garrafas. Vamos lá amanhã.”
A mãe aquecia mais água no fogão, enquanto lavava a filha cuidadosamente.
Josefina estava mais calma. Não se lembrava de tanto cuidado e tantas palavras de sua mãe. Há anos que se lavava sozinha e a conversa entre elas era sempre de ordens em frases de poucas palavras.
Estava a gostar do calor do pano quente e húmido, do cheiro do sabão perfumado, das palavras tranquilas da mãe. Falava-lhe com um carinho que lhe parecia distante, na memória de criança. Tão bom.
A mãe começou a secá-la, já a noite se punha lá fora. Não é que tivessem grandes janelas, mas, com a noite, tiveram de acender o candeeiro a petróleo. Tinham luz elétrica mas o petróleo era mais barato. Josefina gostava da cor do petróleo a arder na pequena salinha de trás, que fazia de cozinha, sala de jantar e sala do banho de sábado ou quando fosse preciso, como hoje. Reconfortava-se com o jogo da chama amarela nas sombras das paredes e no tecto, o cheiro do petróleo e do sabão, a suavidade das mãos e das palavras da mãe, as memórias de criança.
Maria falava como Josefina nunca tinha ouvido. À luz do petróleo, as mãos gastas do trabalho, marcadas pelo sabão e raspadas na pedra do tanque, espalhavam óleo pelo corpo da filha com a suavidade do toque sedoso de mãe. Não lhe parecia aquela pedra negra, insensível, que dormia todos os dias na cama ao lado da sua.
Com carinho, em voz baixa, acariciando, protegendo a sua menina, a falar sem mudar o ritmo nem o tom de voz.
Josefina ouvia com a descontração e a proteção que as crianças sentem nas mãos dos pais. Parecia que não percebia o que a mãe lhe dizia, mas estava a compreender tudo. As duas, agora, era como se fossem só uma. As dores de uma eram as dores da outra, a esperança era comum, partilharam o arrependimento, a perda, o medo e o esforço passado.
O pai de Josefina fora um santo homem, dizia a mãe. Tinha estabelecido e montado oficina de sapateiro com dinheiro emprestado, bem antes de Josefina nascer. Mas não tinha grande cabeça para o negócio, fiava demais, cobrava barato, tinha pena dos clientes, remediava sempre. A vida complicou-se, tinham quatro filhos para alimentar, e Maria teve de arranjar trabalho na pensão. Já não podia confiar no rendimento do marido nem na irregularidade dos serviços a dias que pudesse arranjar. O pai começou a beber, trabalhava cada vez mais horas, mas produzia pouco, ganhava mal, foi perdendo clientes. Bebia cada vez mais. Maria começou a desesperar. Pediu ajuda ao patrão. Ele ajudou. Ela já andava de cabeça perdida, depois perdeu-se por todo. Engravidou. O casal sabia que o marido não era o pai da criança. Depois de nascer, ele começou a dormir quase sempre na oficina. As vizinhas ajudaram como puderam. Os filhos começaram a trabalhar na estiva.
O galego não se calou. Quando bebia demais falava das mulheres que se tinham deitado na cama dele. O nome de Maria veio à baila. Mais uma. Daí até as más línguas questionarem a paternidade da criança foi um fósforo. Foi isso que matou José, e fez os filhos saírem tão novos de casa. As dívidas e a vergonha.
“- Desgraçou-me, desgracei-me, e vou viver com esta culpa para toda a vida. Perdoa-me, minha filha!”
Josefina sentia-se anormalmente calma, para tanta informação dramática. Sentia as dores da mãe, compreendia-a e perdoava-lhe. Agora era ela a adulta, perante a revelação da fragilidade da mãe. Os erros da mãe eram agora também seus, compreendia a vida, o que lhe tinha acontecido nessa tarde e a reação de Rosa.
Via o futuro à sua frente, que já não passava pela rua Direita nem pela Pensão Minho.
“-A quem é que o pai ficou a dever dinheiro?”
Após longa pausa, Maria respondeu:
“-Ao galego.”