W 75th St

Nunca vos contei a história dos meus vizinhos de baixo? Adoro-os. Vivem frente a frente, a um patamar de distância. Quando estão em casa nem fecham as portas, como se fosse um só apartamento. Ninguém se importa, nem o senhorio. Dão vida ao condomínio, não se metem com ninguém, têm as contas em dia e não são barulhentos.
Quando se deitam, fecham as portas. Quando se juntam, num dos apartamentos, para comer ou conversar, também fecham as portas. São tão discretos que nós, vizinhos, sabemos quando fecham as portas, mas nunca sabemos se se deitaram, se se juntaram, ou se fizeram as duas coisas ao mesmo tempo.

Ele já não é novo. Terá cerca de setenta anos. Está reformado e não faço ideia porque é que veio para cá. Viuvo ou divorciado é o meu palpite. Solteiro não é, de certeza. Vive só, entre os livros e histórias que escreve, a cozinha, que cultiva com esmero, e as horas que passa diariamente no Met, na NYPL ou nas muita livrarias que frequenta diariamente. Também passa todos os dias no Italian Market, no Deli e no Fairway do bairro.
Não é rico mas tem rendimentos suficientes para viver com algum desafogo. Nunca sai de Manhattan, não tem carro, nem responsabilidades. Foi onde arranjou o refúgio dos fantasmas do passado.

Ela é mais nova mas tem o porte e a confiança de uma mulher madura e segura. Tão segura que solta com confiança os seus cabelos grisalhos sobre os ombros e usa muito pouca maquilhagem. É divorciada de um francês, alto quadro da Unesco. Trabalhava numa agência de comunicação com projetos de ONGs e das Nações Unidas. Viviam em Paris. Foi um bom casamento, de vários anos, mas não tiveram filhos. Um dia ela concorreu para o ECOSOC, o Conselho Económico e Social da ONU, ganhou o lugar, e foi para Nova Iorque. Ele não quis sair da sua cidade. Ainda estiveram um ano casados, entre aviões e aeroportos, mas depois cada um seguiu a sua vida. Foi o homem da vida dela, mas a decisão estava acima de tudo: queria participar no governo do mundo, na capital do mundo, construir um mundo melhor.

Agora, sai de manhã, muito cedo, e passa o dia todo no seu gabinete na ONU, em reuniões várias, quando não está a viajar pelo mundo, várias semanas por ano, a verificar a aplicação das suas medidas. Quando volta ao fim da tarde, às vezes mesmo tarde, tem a casa quente, candeeiros de luz baixa acesos, duas velas na mesa e um cheiro delicioso a sair da pequena cozinha. Ah, já me esquecia, e um copo de vinho servido ou pronto a servir.
Os jantares são quase um monólogo. Ele quer saber o que se passa lá fora, e ela quer contar tudo, revoltada com as ineficiências, má fé e, muitas vezes, falta de jeito dos políticos. Ele ouve-a pacientemente e dá a sua opinião de mero cozinheiro, como diz, mas com a experiência de quem por muito passou e enterrou no passado.
Depois de jantar, a conversa segue sempre animada, no pequeno sofá ou nos almofadões no chão de carpete. Grande parte das vezes, ela adormece, exausta, ele deita-a e recolhe-se ao seu apartamento, para ler. Outras vezes não, mas isso, nós, os vizinhos, só imaginamos.
Já vos disse que eles são muito discretos?

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