Josefina Madeira . 3

O mês de janeiro era de grande azáfama nos armazéns de vinho, com os engarrafamentos de inverno, aproveitando estabilidade da hibernação sazonal da atividade biológica do envelhecimento em madeira, para a trasfega e deposição em vidro. Além do trabalho de enchimento, arrolhamento, lacragem e rotulagem, feito por pessoal efetivo e bem treinado, era necessário um pequeno exército de indiferenciados para movimentação de barricas sem rolamento, lavagem e preparação do vasilhame, e encaixotamento das garrafas em berço de palha e madeira.
Os trabalhos mais delicados, embora simples, eram entregues preferencialmente a mulheres. Elas lavavam as garrafas vazias, colocavam-nas a escorrer e secar junto dos engarrafadores, e, no fim da linha, depositavam-nas cuidadosamente, com o rótulo para cima, nos caixotes de madeira, para que os homens pregassem as tampas, de seguida.
Toda esta atividade, que durava mais de um mês, entre janeiro e final de fevereiro, dava trabalho, muito bem vindo, a algumas dezenas de pessoas por cada armazém.

Naquela manhã da nova vida de Josefina, mãe e filha desceram decididamente a torta rua Direita, de braço dado, ainda antes do sol nascer, até ao imponente edifício que se destacava no casario, virado ao rio, com o letrame iluminado William Richardson & Co.
O grande portão traseiro por onde costumavam entrar e sair camiões, já estava todo aberto, iluminando a calçada polida, mas não se via vivalma lá dentro. Vários vultos aguardavam fora, discretamente, resguardados da atenção da iluminação da porta, calados ou a conversar em voz baixa, denunciados pelos cigarros em brasa.
Maria e Josefina, chegaram, espreitaram para dentro, não viram ninguém, e juntaram-se ao pequeno grupo do lado direito, com a saudação matinal indistinta que se deve na circunstância. Com o pouco entusiasmo do coro de resposta, perceberam que devia ser gente de longe ou de fora, que não as reconhecia. Melhor assim.

Às oito em ponto, a claridade da manhã já esbatia a luz artificial do armazém. Ernesto, o encarregado, assomou ao portão e mandou entrar os que tinham estado nos dias anteriores. Hoje precisava de mais três mulheres e um rapaz ágil, mas os noviços eram nove mulheres e um homem perto da meia idade.
Maria aproximou-se de Ernesto, um velho conhecido do marido, da meninice.
“- Então, Maria! Também vens procurar trabalho por aqui? Arranjo qualquer coisa para ti.”
“-Bom dia, Ernesto. Eu sou burra velha, vou perdendo as forças e já não tenho como aprender, mas trago a minha filha, na força da mocidade e com cabecinha como eu nunca tive. A professora Amélia diz que se ela quisesse, podia até acabar o liceu.”
“-Ó Maria, para ti tinha já lugar, que já cá andaste noutros anos. Mas, para meter de novo, vou ter de dar vaga a essas que já cá estiveram ontem e antes de ontem. Não quero confusões.”
“-Ó Ernesto! Vamos, confia em mim, ficas bem servido.”
“-Deixa-te ficar por aí. Algumas desatinam com o serviço e vão-se embora. Ou mando-as eu.”
“-Não posso, Ernesto. Tenho de ir trabalhar. Mas deixo aqui a minha menina. Fica à porta, e sei que antes do meio dia, vens cá chamá-la.”
“-Pode ficar. Não prometo nada.”

Josefina ficou encostada ao muro, em frente, a apreciar toda a movimentação dentro do portão.
O engarrafamento era ao fundo. Os barris chegavam do armazém, do lado esquerdo, empurrados num carrinho de rodas com três homens. Entravam para trás de um parede, e do lado direito, saíam vazios, aos rebolões, enquanto as garrafas, que também vinham de lá, eram metidas nos caixotes cheios de palha, para um par de homens assentar pregos na tampa, a toda a força.
Entretanto chegou mais uma carrinha grande, cheia de garrafas. Devem ter vindo de outro armazém, ou da fábrica, mesmo. Meia dúzia de mulheres descarregaram-nas a braços, para o chão, e começaram logo a lavá-las com mangueira e escovilhão, e a virá-las ao contrário, enfiadas nuns espigões verticais armados noutro carrinho com rodas. Percebeu que era para escorrerem, no caminho para o engarrafamento.
Josefina só não via o que se passava atrás da parede do meio. Ficou cheia de curiosidade. Imaginava uma máquina enorme, a comer garrafas vazias, a beber vinho, e a largar garrafas luzidias e arrolhadas.
O tempo foi passando, pelo meio da manhã já estava farta de estar ali, à espera não sabia do quê, deu-lhe a fome. Pegou no embrulho de pano que a mãe lhe deixou no bolso do velho casaco comprido. Abriu. Pão de milho e um troço de chouriço. Ia saber-lhe bem e dava para o dia todo. Água tinha no fontenário ali ao lado.
Ficou melhor. Deixou-se estar. A mãe disse para esperar. Ia esperar. Havia um degrau mas não se sentava. Sentar é sinal de fraqueza e falta de respeito, aprendeu com a mãe. Nunca te sentes, a menos que te convidem ou não estejas à vista de ninguém. Não era o caso. Queria que a vissem com respeito e aspeto forte.
Ao fim da manhã já estava a esmorecer. Não acontecia mais nada. Lá dentro as garrafas estavam lavadas e levadas para trás da parede, a barricas continuavam a vir da esquerda, as garrafas cheias a encher as caixas de madeira, do lado direito, e as caixas a desaparecerem ainda mais para a direita, para outro armazém.

Ernesto veio à porta. Devia esperar alguém. Olhava para ambos os lados da rua, nem reparara em Josefina, em frente. Acendeu um cigarro. Olhou para ela. Era a única pessoa na rua.
Duas passas no cigarro.
“-Ó rapariga! Tu és a filha da Maria, não és?”
“-Sim, Sr. Ernesto. Precisava de algum do meu trabalho?”
Ele não respondeu. Ficou a olhar para ela, pensativo. Fumava o cigarro, olhava à volta, olhava para ela. Quando acabou, fez mola entre o polegar e o indicador e lançou a pirisca para o fim da rua.
“-Anda comigo!”

Ela atravessou a rua a correr e pôs-se logo atrás de Ernesto, a correr o armazém. Viraram para a esquerda e entraram noutro armazém ainda maior, escuro. A luz mal entrava pelas pequenas janelas gradeadas.
Era daqui que saiam as pipas. Umas roldanas dependuradas no teto, com cordas puxadas a braços, por quatro homens, retiravam as barricas, da pilha até ao teto, para o carrinho que as levava, uma a uma, para trás da parede que tinha visto.
Atravessaram um corredor imenso, rodeado por milhares de pipas, achou ela, até uma porta entreaberta, ao fundo.
Ernesto bateu à porta. Uma voz ouviu-se, lá de dentro. Josefina não percebeu.
“-Espera aqui fora!”, disse Ernesto, e entrou.
A porta ficou entreaberta como estava. Agora habituara os olhos ao escuro. Admirava as pipas.Tantas. Tão grande, tão bonito, paredes de pedra, teto muito alto, em madeira. Cheirava bem.
Ouvia a voz de Ernesto.
“-É uma rapariga, mas acho que serve.”
Ela não conseguia perceber o que outra pessoa dizia. Falava baixo.
“-Para aí quinze anos. Mas é forte.”

“-O que o senhor quer é alguém ágil e forte. E mais esperto do que esse desgraçado que cá andava.”

“-Sim. E está aqui comigo. Se quiser, pega já.”

Ouviu um barulho de cadeira a arrastar e a porta abriu-se toda. Josefina ficou iluminada pela luz lá de dentro. Saiu um homem que lhe pareceu enorme, com Ernesto logo atrás.
Primeiro reparou nas calças claras dele, curtas, estranhas, com uns sapatos de atacador castanhos. As meias grossas, altas, sem mostrar a perna. Depois na camisola grossa, também castanha, como os sapatos, de gola alta.
Olhou-o nos olhos.
Estava sério a olhar para ela. Era bonito. Tinha o cabelo claro, liso, muito curto atrás, penteado para o lado à frente, comprido sobre a testa.
Continuava a olhar para ela. Era novo, teria pouco mais de vinte anos.

“-My name is Sebastian, Sebastian Coleman.”
“-My name is Josefina, Josefina Madeira.”
Sebastian ficou impassível, a olhar para ela. Ernesto abria a boca.
“-Do you speak english?”
“-A little bit.”
Sebastian abriu os braços com uma gargalhada.
“-Wonderful, wonderful! Excellent, Ernesto. Thank you.”

Ernesto continuou sem perceber exatamente que milagre tinha acontecido, mas Josefina agradeceu intimamente à professora Amélia, por lhe ter emprestado e insistido na leitura de “Adventures of Huckleberry Finn” e “Alice in Wonderland”. Pouco percebia do que lia mas a professora insistia para levar os livros para casa, todos os dias, para ler mais um pouco, à noite, e no dia seguinte conversavam e discutiam, no intervalo da escola, sobre o que ela tinha lido na véspera.

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