Um homem na corrente

Todos os dias entrava na corrente de gente que ia para lá, fosse para onde fosse, ordeira na pressão sobrelotada. Passava o torniquete, descia a longa escada mecânica, encostado à direita, como faziam os previdentes que se tinham levantado a tempo, chegava à sala grande das decisões, escolhia a direção que levasse mais gente, queria fazer parte da maioria, ser como os outros, sentido de grupo, metia-me no corredor estreito, ombro a ombro, atento à distância higiénica ao da frente que não é cumprida pelo que vem atrás, curvas a noventa graus, empurrões dos de fora, que perdem terreno no maior perímetro a percorrer, pi sobre dois vezes a distância à esquina, fazia os cálculos, os cálculos distraem-me, até chegar à comprida e estreita plataforma de teto curvo, já cheia dos que iam à frente, auriculares, copos com tampa de bebidas que já tinham esfriado há muito, olhares na publicidade a férias no outro lado do mundo, vozes gravadas a anunciar direções e sentidos, apertados atrás da linha amarela.
A linha amarela dá-me medo.
O barulho dos carris, corrente de ar quente, surge a máquina, minhoca apressada, grande, guiada por um homenzinho atrás do vidro da frente que parece que fica surpreendido por ver tantos à espera. Pára, as portas abrem-se, há alguns para sair. Como é que há gente que anda ao contrário? Não sabem que vamos todos para lá? É deixá-los sair, coitados. Entramos, empurrões, cabe sempre mais um, a porta não fecha, aviso sonoro, fecha-se, arrancamos, olhos nos teto, no chão, nos telemóveis, excêntricos com jornal de papel, barulho, trepidação. Primeira paragem, entra mais gente. Segunda paragem, saem uns, entram outros. Perco a conta às paragens.
Agora saem quase todos, saio com eles. Nunca tinha saído aqui. Amanhã venho outra vez.
Cuidado com a linha amarela.

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