Os dias correm na sua entediante monotonia de lento desgaste, encadeando pequenas irritações com ainda menores entusiasmos, neste passeio de sentido único da vida diária que sabemos como acaba, acreditando que nos vamos aborrecer de morte antes que ela se aborreça de nós.
Nada é pior do que a injustiça do chefe, as contas do fim do mês que não batem certo, a pequena inveja da amiga, a avaria da caldeira de casa, os vizinhos barulhentos ou a multa que não contávamos. O maior azar é não ter o golpe de sorte que nos permita saltar o quotidiano cansaço.
Até aquele dia em que o telefone toca de madrugada ou o médico nos chama para uma conversa séria, e o nosso passeio deriva para um outro ramal, nova paisagem, novo destino, outra paragem. Quando o diabo dispara uma tranca.