Josefina Madeira . 10

“-Foi na fábrica do seu pai que aprendeu estas coisas, de gerir negócios?”

Foi assim de rompante que Josefina entrou na conversa do serão, junto ao rio, que já se tornava um hábito, como qualquer ato se torna hábito quando se repete com agrado e conforto, mesmo que seja só pela segunda vez, na repetição do lugar, do momento, os cadeirões confortáveis, o rio, o agasalho, com emoção e satisfação.

“-A fábrica não era do meu pai. O meu pai não era de Grosmont.”

Sebastian fez uma pausa. Parecia que estava a pensar no que dizer, como se não se lembrasse exatamente como tinha sido ou lhe tinham contado, mas, na realidade estava indeciso sobre o rumo da história. Ou melhor, sobre o ramo da história: se o da via materna, se o da paterna.
A história pesava-lhe, não no orgulho dos feitos dos antepassados, ou na vergonha dos registos de maldades e traficâncias, que todas as famílias com passado têm, mas pelo que lhe ensinava no testemunho do reviver de consequências que se repetem, por gerações, na ignorância de erros de causas passadas.

“- O meu tetravô, Arthur Thompson, era um modesto proprietário rural. As charnecas são terreno pobre e barato. Tinha gado e cultivava alguns cereais, além da forragem para os animais. Já há algumas gerações que sabiam que vivam sobre um monte de pedra preta. Quando se faziam escavações, em trabalhos na terra, poços ou minas, a poucos metros de profundidade aparecia a pedra preta. Sabiam bem que era hulha, boa para o inverno. Traziam uma carrada dessas pedras escuras e luzidias e tinham aquecimento para a noite toda. No verão, às vezes, havia problemas, com fogueiras e queimadas. Alguns filões afloravam à superfície e incendiavam-se. Também podia ser espontâneo. Não era perigoso, o fogo era muito lento, muito localizado e sem chama, mas também era persistente. Não se consegue apagar com água. Só abafando com terra e demorava dias, a fumegar, até apagar a brasa.
Ouvi estas histórias dezenas de vezes, da minha avó. Eu nunca vi estes incêndios. Agora já não há hulha à superfície.”

“-Isso é estranho. Montes a arder por dentro.
Já não arde? Conseguiram tapar a hulha toda?”, perguntou Josefina.

“-Tapar? Não!
Escavamos, gastamos e vendemos quase toda!”, disse Sebastian, a sorrir.
“-Grosmont é muito perto de Whitby. Na altura, Whitby era um pequeno porto de pesca. Tinham estaleiros, faziam os seus próprios barcos e pescavam. O principal sustento era a caça da baleia. Estavam ligados ao mundo pelo mar, de barco, e por pequenos e tortuosos caminhos de terra pelos moors, onde chegavam até Middlesbrough e York, a cavalo e de charrete. Mas a Inglaterra estava a mudar muito depressa, com o carvão e a máquina a vapor.
Em 1835 surgiu a Whitby and Pickering Railway, a W&P, que pretendia ligar o porto de Whitby a York e à rede de caminho de ferro nacional, até Leeds e todo o país. As linhas foram construídas atravessando as terras dos Thompson, que negociaram da melhor maneira. Mas o grande negócio foi a exploração da hulha para a florescente indústria. O velho Arthur, de granjeiro a barão do carvão, ficou rico em pouco tempo.
Em 1840, a W&P teve de furar um monte para escavar um túnel, nas terras de Arthur. De centenas de homens a trabalhar nessa obra, que vieram de outras paragens, com suas famílias, estabelecendo-se em casas de madeira improvisadas, nasceu uma pequena cidade, que lá ficou, depois dos trabalhos, no progresso do caminho de ferro. Começou por se chamar Tunnel, prosaicamente, mas foi rebatizada de Grosmont, em 1895. Os Thompson, agora, também eram landlords.
Por essa altura, nas escavações do túnel, descobriram, também, terras ricas em minério de ferro. Ferro e carvão é a base da metalurgia. Em 1910, o meu avô funda a Thompson, Foundry & Iron Works. Durante a Grande Guerra, ganhou bom dinheiro a fabricar peças para navios, tanques e canhões.
A Thompson era tão conhecida que, em 1940, foi o primeiro alvo da Luftwaffe, no North Yorkshire. Pouco se estragou, recuperaram rapidamente, mas esse bombardeamento causou grande impacto na cidade. A minha mãe nunca mais me deixou aproximar da fábrica. Tinham um vigia permanente, a olhar os céus. Sempre que se aproximavam aviões, tocava a sirene e fugiam todos para o campo.
Ela vivia em pânico, com a ideia da guerra chegar até ali, um desembarque e invasão dos alemães. Boatos, havia muitos. Uma vez, fizemos a mala à pressa porque diziam que os alemães estavam em Whitby e já havia combates de rua. Afinal era uma rixa de bêbados, com pancadaria. No fim, para comemorar o alívio, acabou tudo no pub, com muitos cânticos mas sem porrada.”

Fez uma pausa, como se a organizar as ideias.
Josefina já não se surpreendia.

“- Acho que foi a primeira vez que entrei num pub. Fui com a minha mãe. Também estavam lá outros miudos. Tinha seis anos. Com essa idade não podia, mas nesse dia valeu tudo. Parecia que tínhamos ganho a guerra, numa invasão que nunca existiu.”

A memória fez-lhe reviver a sua maior paixão.

“-Os aviões passavam constantemente sobre as nossas cabeças. Havia dois aeródromos da Royal Air Force muito perto, em Linton-on-Ouse e Wombleton. De lá saíam bombardeiros carregados de bombas para a Noruega, Holanda e Alemanha. Eu gostava de ver a escolta que os Spitfire faziam aos Lancaster. Uma vez cheguei a ver dois Spitfire a perseguir um Messerschmitt, sobre o mar, em frente a Robin Hood’s Bay. O alemão fugiu.”

Pôs-se de pé, sem olhar para Josefina.
Quando estava nestas memórias, nunca a olhava nos olhos. Como se estivesse outro mundo.

“-Sempre quis ser piloto de Spitfire.
No fim do colégio, com dezassete anos, apresentei-me na RAF para ser piloto. Não me aceitaram. Meio a brincar, meio a gozar, fui rejeitado logo no primeiro dia, alegando que com 1,90 m não conseguiam fechar a carlinga do Spitfire.
Era grande de mais para caber num avião de caça.”

Ficou calado bastante tempo, sério.
Parecia que recordava algo duro.

Após longos minutos, foi Josefina que falou.
“- Deve ter sido giro, nascer em Grosmont, crescer nos moors, com esse passado e recordações.”
“-Recordações de lá, tenho muitas. De miúdo, antes de vir para cá, e depois, nas férias, dos dez aos dezessete.
Quando voltei a Inglaterra, em 1945, a minha mãe mandou-me para um colégio interno, como acontecia a todos os miúdos da minha condição.
Tive de fazer um exame especial, porque tinha passado três anos em Portugal, longe da guerra e das escolas inglesas. Mas tudo correu bem, estava bem preparado.”

Virou-se para ela.

“-Amanhã temos folga do trabalho. Vamos visitar o padre Rogério. Maria disse-me que ele ainda está por cá. Não precisamos de levantar tão cedo.
Agora vamos dormir. Preciso de descansar.”

Pegaram nas almofadas dos cadeirões, para as guardar, e diirigiram-se para a porta envidraçada de correr, que acedia ao salão.
Ele parou à entrada.

“-Eu não nasci em Grosmont.”
Fez uma pausa teatral.
“-Nasci no Cairo, em 1935. Mas isso só conto amanhã.”

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