Josefina Madeira . 11

Saíram de casa pelas nove horas, fazendo-se ao caminho pela única estrada, se é que se pode chamar estrada a um estradão de terra ainda que bem cuidado, que dava saída dali para fora, ou de lá para dentro, consoante a vontade ou conveniência, subindo curva à esquerda, curva à direita, repetidas em frustrantes ganchos intercalados por curtas retas de inclinação suave, à maneira de ultrapassar declives, montes e montanhas, com pouco dispêndio de calorias por cada hora percorrida.
O sol, já erguido, aquecia e recuava as sombras dos montes sobre o rio escuro e majestoso, e sobre casa onde já refletia na água corrente do tridente do filho de Poseidon.
Tinham feito aquele mesmo caminho na antevéspera, na volta das vinhas, mas agora parecia diferente, com outra orientação solar. As horas mais bonitas do dia são as primeiras e as últimas, e devem ser vividas e sentidas à sua maneira, na glória promissora da alvorada ou na tranquila melancolia do pôr do sol.

Sebastian parava várias vezes para fotografar, agora não as plantas, mas sim a paisagem. Não parava de falar, a recordar-se dos seus tempos de menino refugiado da guerra. Privilegiado mas, na mesma, menino assustado.
Parecia que falava para si, só, num monólogo egoísta. Não aguardava resposta e até parecia que ignorar Josefina, mas, quando os olhares se cruzavam, os olhos dela, curiosos e atentos, incentivava-no no discurso da sua memória.
Para ela, era a continuação da abertura de um mundo cheio e distante, que a fascinava, para mais, da vida de um homem ainda tão jovem, rapaz alto e desengonçado.

William havia-lhe reservado um lugar numa turma do colégio inglês, da cidade, mal soubera que Sebastian vinha pelo Natal. Ainda chegou a lá ir, quase uma semana, no início do segundo período. Não conhecia ninguém, os meninos eram ingleses mas eram diferentes dele. Conheciam-se bem entre si, eram filhos e netos de amigos de William, praticavam equitação, ténis e críquete no mesmo clube, ali perto, mas vestiam roupa muito diferente da dele e até o sotaque estranharam.
Sebastian sempre vivera sozinho, não tinha irmãos nem amigos chegados, nunca fizera grandes amigos na escola de Grosmont. Era tempo de guerra, havia poucos meninos, a mãe não o queria internado num colégio longe de casa. A turma era pequena, de filhos de operários, de ferroviários e de famílias de granjeiros das redondezas.
O que mais gostava era dos longos passeios de bicicleta até ao mar, por caminhos quase vazios, de sobe e desce colinas, da urze e flores silvestres ao vento, do roncar dos aviões a partirem para a guerra, lá longe, do outro lado do mar.

Estranhara a cidade. O céu de inverno era tão escuro e húmido como o dos Moors mas faltava-lhe o espaço e o vento.
A casa de William era grande, de vários andares, ligados por umas escadas de madeira escura, com corrimão trabalhado, que subiam em caracol entre os vários patamares, com um vão largo ao meio que deixava entrar a luz da clarabóia, no telhado, até ao piso de pedra, no rés do chão, Encaixada no meio de outras casas escuras, paredes meias, todas seguidas e de um lado e doutro, a abrir porta, janela e portão de garagem, estreito, diretamente para a estreita e sinuosa rua, de empedrado húmido e escorregadio, em rampa desde a beira-rio até ao jardim lá acima, do colégio e do mercado.
O rés do chão da casa tinha um pequeno hall, para a porta da rua e janela, de onde acedia às escadas. Ao lado ficava a garagem, por onde também se passava por um corredor de serviço, oculto, para o armazém de carvão e mantimentos, nas traseiras, para cozinha, para as caldeiras e para o quarto das criadas. As traseiras abriam para um pequeno pátio.
No primeiro andar, virado para a rua, ficavam o salão de estar e sala de jantar. Soalho de madeira a ranger, tapetes persas, lustres de cristal, espelho na parede, porcelanas em armários de vidro, pratas, candelabros, retratos de família, cortinas pesadas, mesa comprida, doze cadeiras forradas, sofás, mesa de jogo, carrinho de chá, cinzeiros, grafonola e piano. No mesmo piso, para trás, ficava a copa, ligada à cozinha por um pequeno elevador elétrico que fascinava Sebastian.
No segundo andar ficavam os aposentos privados. Duas suítes viradas para a frente e dois quartos para as traseiras, onde dormiu Sebastian.
O terceiro andar não tinha utilização definida. Era de quartos para hóspedes ou arrumos. William usava o da frente, para escritório de casa.

William vivia só, com duas criadas e o motorista, desde que os filhos, John e George, tinham ido para Inglaterra, servir a pátria. As criadas fardavam vestido preto, avental branco e cabelo apanhado. A mais velha era autoritária, falava alto, em português, percebia inglês, quando William lhe dava ordens, mas fingia nunca entender o que Sebastian dizia. A mais nova, nem vinte anos teria, magra, nariz comprido, quase sem queixo, pouco falava. O motorista conduzia o carro do patrão e fazia serviços de expediente na William Richardson & Co. Dormia num quarto das águas furtadas, lá para o quarto andar, para onde passava por uma porta furtiva, no patamar do terceiro andar, para umas escadas íngremes e estreitas. Também era de poucas falas.

Passavam os limites da quinta, marcados por dois imponentes tranqueiros de granito, e começaram a descer para a vila, a três quilómetros a partir dali. Já seguiam na via pública, de polido empedrado, e Sebastian continuava a contar os seus primeiros dias na quinta.

Como se estava a dar mal na solidão da casa da cidade, e como fora quase adotado por Maria, naqueles poucos dias que por lá passavam, William decidiu deixar a formação escolar para mais tarde, e privilegiar a estabilidade emocional, por algumas semanas ou meses, para consolar a criança longe da mãe e da sua casa.

Maria e Sebastian não falavam a língua um do outro, mas entendiam-se divertidamente entre gestos e desenhos. Ao fim de uns dias, depois de William partir, Maria resolveu levar o menino a passear à vila e passar na escola, por sua iniciativa. Maria sabia que um rapaz de sete anos precisava de escola, mesmo em tempo de guerra, num vale recôndito de um periférico país neutral. Não tinha forma de pedir autorização ou opinião ou, sequer, informar William, tutor legal do miúdo, da sua decisão, mas também achou que a escola não faria mal ao rapaz. Ia-lhe escrever, é certo, mas com a ida e vinda do correio, a resposta chegaria perto do fim do mês.
Maria não sabia como se poderia ensinar um menino estrangeiro no Portugal rural, mas achou que à professora Dulce, que tinha sido sua professora e de bem mais de metade dos habitantes da vila, e das aldeias vizinhas, veterana de várias gerações, não haveria de faltar solução.
Maria levou-o à escola primária da vila, por este mesmo caminho, por esta hora também, num frio dia de sol, de janeiro de 1943.

Na escola, o problema que se pôs é que a professora ainda sabia menos inglês do que Maria, que tinha prática de ouvir as conversas dos patrões e sabia vocabulário de sobrevivência caseiro. Sem comunicação, nada feito. Mas a professora Dulce lembrou-se do improvável anglófilo da terra, o Padre Rogério. Recordara-se de uma receção, na câmara municipal, a propósito da inauguração do coberto do lavadouro público, em que, em conversa, a propósito de literatura, constataram que as individualidades da terra, edil, juiz, professor, médico e padre, conseguiam entabelar conversa rudimentar em francês, mas surpreenderam-se com os dotes linguísticos do padre, que, além do francês da escola e do latim da missa, conseguia ouvir a BBC em direto, na onda curta da telefonia, e traduzir-lhes simultaneamente, em voz alta, as últimas da guerra.
Ficaram a saber que o padre, na juventude, fora missionário em Moçambique, no Tete, interior de confluência das Rodésias, do norte e do sul. O desterro do lugar e a proximidade das colónias inglesas, nesses oito anos, desenvolvera-lhe a fluência em inglês.

Desciam as curvas da estrada, viam a vila, a ponte, os vinhedos a ladear o rio. Nesta meia hora que levavam, não tinha passado qualquer carro ou carroça. Sebastian não se queixava, falava com entusiasmo, mas parecia, a Josefina, que o coxeio dele acentuava-se. Não quis perguntar.

Sebastian fazia este caminho todos os dias, de bicicleta, para ir para a escola.
Nos primeiros dias, Maria foi com ele a pé, levá-lo e trazê-lo, cinco quilómetros para cada lado, de manhã cedo e a seguir ao almoço. Depois, com a resposta por carta, de William, viera a aceitação da solução de escola local, mas com a ordem de que Jerónimo, o velho feitor, levasse e trouxesse o menino na camioneta da quinta.
Sebastian não queria andar com Jerónimo, não gostava dele, e convenceu Maria a deixá-lo ir de bicicleta. Passou a ser o segredos deles, o primeiro. Fizesse chuva ou fizesse sol, Sebastian ia de bicicleta para a escola. Quando chovia, levava uma capa de chuva e botas de borracha, de trabalho da quinta. Nunca se molhava e sentia a liberdade que teve no Yorkshire.

Caminhavam por entre vinhas, na descida para a vila. O declive deste lado era mais suave. Via-se o rio, a ponte, o casario de um lado e do outro, a igreja, a escola, na pequena quadrícula paralela ao rio, de avenida marginal, rua de trás, terceira rua quase descampada, que era a continuação da estrada para o concelho seguinte, e quatro transversais, uma das quais ligava a estrada nacional à ponte, passando pela pequena praça do município, de calçada e jardim, em torno do pelourinho. A vila desenvolvera-se na pequena porção de terra plana, entre o rio e o início do monte ensocalcado.

Naquele primeiro dia, aguardaram o fim da escola, ao princípio da tarde, e foram os três procurar o padre. Estava em casa. Respondeu-lhes de uma das janelas e mandou-os entrar. A porta estava aberta.
Esperaram uns minutos que se arranjasse. Era uma casa modesta, térrea, austera, encostada às traseiras da igreja. Entrava-se para uma pequena sala, de paredes brancas, recém pintadas, com uma mesa de jantar e quatro cadeiras, do lado direito, um sofá de dois lugares puído, do outro lado, e um pequeno aparador com portas de vidro de correr, onde se viam algumas chavenas de café, de serviços diferentes. Enquanto esperavam, Sebastian distraia-se com pormenores. Estava nervoso. Nunca tinha estado na casa de um padre. A mãe era católica mas não era muito de missas. Lembra-se de ter ido com ela algumas vezes à igreja católica de Saint Hedda, em Egton Bridge, a mais perto de casa deles. Era grande e bonita, velas, vitrais e imagens de santos. Contava as chávenas e os pequenos desenhos de flores, cinzelados no vidro. Desviava o olhar do crucifixo de madeira que enchia a parede. Não enchia pelo tamanho, era pequeno, mas era o único acidente nas quatro paredes muito brancas. De madeira escura, com um Cristo de latão polido a olhar o chão, em sofrimento. Sempre sofrera com as imagens dos mártires da igreja. Ouvira as histórias do sofrimento voluntário e tinha vontade de pegar naquelas imagens e levá-las com ele, libertá-las. Tivera pesadelos com um Saint Sebastian que vira na igreja, um santo com o nome dele, novo, cara de miúdo, despido e amarrado, espetado com setas, a chorar lágrimas de sangue. Aquele Cristo crucificado também sofria. Contava as chávenas, quase todas diferentes. Quantas diferentes?
O padre entrou. Não vinha de batina, como esperava, mas de casaco cinzento sobre uma camisa preta e gola clerical branca. As calças também eram pretas. Parecia mais um pastor anglicano. Se o visse na rua, não diria que era padre. Todo ele era civil. A postura, a roupa, o corte de cabelo. Era simpático.
Falavam entre si. Sebastian não percebia que diziam. Por duas vezes o padre pousou-lhe a mão na cabeça, sem olhar para ele. A certa altura falaram no nome dele. O padre deu um passo atrás, para o ver melhor, e falou-lhe em inglês, com ligeiro sotaque:
“-Olá, Sebastian! És o meu novo paroquiano?”

O padre Rogério, a professora Dulce e Maria foram os responsáveis pelo bom período que Sebastian passou lá, naqueles dois anos e meio no Portugal rural, em tempo de guerra mundial.
Combinaram um plano especial de estudos. Estudos em tempo de guerra, estudos para um pequeno refugiado.
Sebastian passava as manhãs na escola primária. Aprendeu a fazer contas como adição, subtração, multiplicação, divisão, mas também frações e geometria. Nas ciências, aprendeu os princípios de biologia, física e química. Da história de Portugal, mal percebia os textos, mas a professora Dulce teve o cuidado de cruzar a cronologia portuguesa com a história universal e as datas inglesas mais importantes. Da geografia, adorou as montanhas, rios, linhas de caminho de ferro, tanto da metrópole como das colónias. E começou a aprender português.
Comia na escola a merenda que Maria lhe preparava e ia ter com o padre Rogério, à igreja ou a casa. O padre nem sempre podia estar com ele mas deixava-lhe sempre leituras e trabalhos. Iniciou-o nos clássicos e falavam de tudo, de sociedade, cultura, até política em tempo de guerra. Era viajado, estudou em Roma, passou anos em África, tinha histórias caricatas e interessantes sobre tudo e todas as situações. Era claramente anti-nazi e anti-fascista e ficara impressionado com a história de Sebastian, sua mãe e o destino trágico de seu pai, em El Alamein.
O padre tinha uma biblioteca reduzida, mas interessante, fascinante para um miúdo curioso. Primeiro apresentava as obras, enquadrava o tema e a história, alertava para que alguns pontos importantes, liam alguns capítulos juntos, em voz alta, e depois Sebastian corria na bicicleta para casa, sobe e desce, com pressa de ler mais e desvendar o que vinha a seguir.
O primeiro que leram foi “The Jungle Book” de Rudyard Kipling. Sentiu-se Mowgli, criado na selva, por lobos, amigo do urso Baloo, da pantera Bagheera e do tigre Sheere Khan.
Depois leram “Ivanhoe” de Walter Scott. Sebastian entusiasmou-se com a Inglaterra do século XII, a luta do saxão Sir Wilfred of Ivanhoe pela restauração de Richard The Lionheart, contra a opressão dos normandos, a descrição dos torneios, e o amor proibido de Lady Rowena.
Leram vários livros, revistas, jornais, ouviam rádio, falavam de política, da guerra, da sociedade, do futuro. Estas tardes em inglês formavam o jovem Sebastian e mantinham o contacto com a sua cultura natal. A sua cabeça andava pelo mundo todo. Na rádio, ouviam os discursos de Churchill, os relatos do desembarque em Itália, da guerra no Pacífico e na Rússia, enquanto o padre mostrava as terras num velho mapa-mundi.

William ficou preso aos negócios, na cidade, sem a ajuda dos filhos, que estavam em Inglaterra, e só voltou à quinta pela Páscoa de 1943. Não estava muito preocupado, pois ia sendo informado pelas cartas semanais de Maria, relatando o dia a dia da criança, onde ela juntava umas folhas escritas em inglês do menino, a quem William respondia da mesma forma. Ela não sabia o que eles se correspondiam mas não deveria ser lamentos e más notícias, a ver pelo contentamento do rapaz e pela simpatia das palavras que o patrão lhe dirigia.

No dia do nono aniversário de Sebastian, o padre Rogério disse que não tinha mais livros em inglês mas tinha chegado a altura de dar o grande passo. Pousou em cima da mesa um velho volume de capa dura. Sebastian pegou, abriu, eram poemas e não conseguiu ler nenhum.
“-Esta é a obra fundamental da nossa civilização. A Eneida, de Virgílio. Não é obrigatório ler no latim original, mas é a única versão que tenho. Vais aprender latim ao mesmo tempo que vais seguir Eneias, desde a derrota de Tróia, quando enfrentou Aquiles e foi salvo da morte por Poseidon, até à fundação de Roma. Está aqui tudo o que sabemos e conhecemos, neste nosso mundo, como o destino, o dever, o nacionalismo, a coragem, a perseverança e a conexão entre os deuses e os mortais. E vais aprender a ler na verdadeira língua da sabedoria.”

“-Tu falas latim, como os padres?”, perguntou Josefina com admiração.
“-Claro que não”, respondeu divertido, “mas sei ler quase tudo. Abre-nos as portas do passado. Ainda vou aprender grego, quando tiver tempo, depois do vinho.”

Leave a comment

Design a site like this with WordPress.com
Get started