Lembras-te de mim?

Ouviu a pergunta numa improvável fila de espera de reclamações de clientes.
Lembras-te de mim?
Claro que se lembrava da cara, dos olhos, do sorriso, da face com menos rugas e pintura.
Lembras-te de mim?
Claro que se lembrava das juras, das promessas, da intensidade, da paixão, do calor, da pressa, do cheiro, de cada milímetro do corpo, mas não se lembrava do nome nem de onde.
Lembras-te de mim?
Forçou um sorriso, atrapalhado com a sucessão de nomes na memória, na esperança de apanhar algo que lhe desembaraçasse a situação.
Lembras-te de mim?
Lembrou-se claramente da voz, a mesma voz, a dizer que não queria que chegasse o dia em que ele se esquecesse dela.
Lembras-te de mim?
Claro que me lembro, mentiu, sem convicção, porque ela percebeu e já não perdoou nem se descaiu.
Não te lembras de mim?
Não me lembro, confessou, sem perdão, tornando-se numa cretina desilusão de promessas esbatidas, de homem maduro de várias vidas passadas, preferindo assim ficar, numa reserva, para si, da sua senil e envergonhada degradação.
Estou aqui a reclamar o quê? O que é que comprei?

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